A insistência dos ausentes 2
Escrito por charles c em Fevereiro 15, 2004
Na foto, um dos inúmeros cinemas pornôs do Centro.
Geralmente se em ia em turma ao cinema. Até porque era uma atividade social assistir filmes. E era o momento de ver e ser visto. Em trupe. Ir sozinho? Novamente a morte social. Todavia, eu ia muitas vezes sozinho ao cinema. Até porque muitas das películas eu não tinha nem com quem ir, visto que a maioria dos meus amigos gostava mesmo era dos filmes de ação. Ver um filme dos irmãos Cohen aos 14 anos de idade? Ah, Charles, só tu mesmo… Nem vai ter explosão. E lá fui eu ver “Na Roda da Fortuna”, numa sessão que começou com três pagantes e terminou com dois (contando comigo). Um havia achado ruim e tinha ido embora antes de acabar.
O “verme” – ainda se usa essa gíria? – era tão grande que eu aproveitava para ver logo dois filmes numa tarde só. E foi desse jeito que assisti duas calamidades no mesmo dia (um filme do Steven Segal e “A Família Buscapé”). Meu amigo prometeu vingança por eu tê-lo chamado para assistir isso. E ele se vingou, porque me chamou para ver “Um Drink no Inferno”.
Se a fila era grande, dava-se aquela olhada para achar alguém conhecido. Se não tinha, era necessário usar o truque para furar fila no período de férias: chegar num garoto tímido solitário ou em alguém muito extrovertido. O tímido não negaria, porque ficaria inibido. Para o extrovertido tudo era festa, então deixar alguém passar na frente dele seria um ato de transgressão, o que era legal.
Aliás, existia o “filme” das férias. Naqueles tempos, só um ocupava esse lugar. Teve o
“Batman 2” (todo mundo com tampinhas de Pepsi no cinema, para aproveitar a promoção), “Jurassic Park” etc. De volta as aulas, ainda se falava sobre essas películas (que ficavam muito tempo em cartaz). Agora, há vários filmes de destaque, e eles começam a chegar nos cinemas já em maio.
Enfim, foram várias histórias, como pedir para um senhor dizer que era meu pai para eu poder assistir “Trainspotting” (a censura do filme era 18 anos); o balão no teto do cinema; a vez que assisti um filme na área de fumantes do cine Fortaleza etc.
Rodapé
Apesar de refutar o sentimentalismo tolo dos saudosistas, uma coisas é certa: é triste ver cinemas virando lojas, igrejas evangélicas. Todavia, o mais grave é ver que no Centro proliferam os cinemas pornôs. Nada a ver com moralismo, apenas acho isso um desatino, porque há vários, e todos em péssimas condições. Assim, mais um ponto de Fortaleza vai virando um imenso prostíbulo, como ocorreu com a Praia de Iracema. Quando em muitas cidades do país se pensa a restauração dos Centros, Fortaleza o abandona. Daqui a pouco, essa cidade virará um imenso puteiro. Triste Fortaleza.
