A insistência dos ausentes
Fevereiro 15, 2004
Na foto, o que sobrou do cine Fortaleza.
É triste ver o que aconteceu com o cine Fortaleza. Primeiro foi o cine Diogo, que virou shopping. Agora, o cine Fortaleza, que já estava desativado há um bom tempo, acabou de vez.
Não, não me portarei como um saudosista tolo, e direi coisas como “no meu tempo era que era bom”. A tendência do fechamento dos cinemas do Centro é nacional. Entretanto, mal comparando, é como a morte anunciada de um parente com idade avançada. Todo mundo sabe que vai morrer, mas mesmo assim fica a tristeza na hora da morte.
Foram vários filmes nesses cinemas. Era economizar um pouco e rumar para as salas de exibição. Pipoca? Só às vezes, porque o dinheiro era curto. E muitas vezes só para impressionar a moça. Esbanjava-se, comprava refrigerante e pipoca (tudo o mais caro!), e tinha de pedir dinheiro depois para o amigo, senão voltava a pé para casa. E ainda tinha de torcer para ela recusar o chocolate. Claro, era nosso papel oferecer. Mas não muito, porque todo mundo tende a aceitar depois da segunda insistência.
Não podia levar muito dinheiro, porque o pessoal que estudava na rede pública ficava na bilheteria e pedia para quem estivesse pagando que comprasse a entrada deles também. Eu, magrinho e baixinho, não podia levar nota de dez reais. Esperto, deixava o valor da meia entrada já no bolso da calça. Se desse, aproveitar para assistir logo duas sessões. Mas só nos filmes “massa”.
No cine Diogo era lei: os mais descolados ficavam na parte de cima. Até porque quem se atrevia a ficar em baixo corria o sério risco de levar papel – ou coisas piores – na cabeça. Era tradição também gritar impropérios. Os mais criativos recebiam gargalhadas como premiação. Já os sem graça recebiam um grande “ô ô ô ô ô ô ô ô ô”. Invariavelmente, o que era dito versava sobre a mãe de alguém. É aquele tipo de diversão que, quando você tem uma idade maior e vê alguém fazer, fala desdenhoso “ainda bem que eu cresci e não faço mais essas coisas”. Bobagem, naquele tempo fazia todo o sentido.
No Iguatemi era a mesma coisa. Quer dizer, tudo era mais caro, as salas eram menores, você tinha de ir mais arrumado (mas aquele tipo de arrumado desleixado)… Era obrigatório ir às lojas de CDs - no Centro, se ia a Galeria do Rock - e ver um monte de álbuns de rock. Sim, porque ser visto com o disco do Roxete na mão era a morte social. E a desculpa que era para a namorada nem sempre colava.
Falando em namoro… O período de azaração no Iguatemi era maior, porque ficávamos zanzando por lá antes e depois do filme. Pois é, eu sou do tempo do ficar, mas no “meu tempo” era tudo mais simples, não era esse festival de línguas que existe hoje, não. Era tudo mais ingênuo. Será que ela gosta de mim? Será que posso convidá-la para ir ao cinema? Que filme ela gosta? Será que eu devo convidá-la na quarta, no dia dos pobres, ou devo esbanjar e chamá-la para ir no fim de semana? Detalhe: estou falando dos anos 90.
Depois, dar um tchau (ou era falou, que no tempo não se escrevia com w no final?) e dizer que ia ficar mais um pouco, porque ‘tava muito cedo para voltar para casa. Que nada, tudo mentira. Era para ir esperar o pai nas entradas perto do Cocó, para ninguém ver que íamos voltar de carro. Nem precisa lembrar que seria a morte social ser visto sentado na calçada, esperando o pai.
Era o tempo de perturbar o irmão para pegar o carro e participar das “blitz” das rádios e conseguir os ingressos. Charles, você conseguiu a entrada para a pré-estreita do filme tal? Tu és muito cagado, cara.
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