Confronto travestido de boas intenções
Fevereiro 15, 2004

Um convite serve para celebrar algo. É composto, para dois ou mais. É um chamamento para bons momentos, celebrações, festas, comemorações. Mesmo que não seja para compartilhar coisas alegres, serve para procurar o apoio coletivo, homenagear alguém (como um velório). Em suma, há sempre o componente positivo. Pelo menos para mim.
Entretanto, como diz Ítalo Calvino, “o poder da narrativa não está na voz, mas sim no ouvinte”. Há convites que são mais difusos de serem lidos. Precedidos de percalços, o chamamento pode ter uma leitura distinta. Mesmo quando o emissário sugere algo redentor, como pedir desculpas, o receptor permanece na dúvida. Ou seja, tais convites podem ser uma provocação, uma convocatória para discórdia.
Para mim, sabendo do seu caráter (ou falta dele), não há dúvidas dos propósitos desse convite. As pessoas próximas sabem onde não estarei nesse sábado. Erro que teima em retornar saiba que sempre fracassa nesse intento.
Cazuza
Um belo filme. Atuações sublimes. Entretanto, creio eu, o homenageado merecia mais. Tirar Ney Matogrosso da narrativa foi um erro, bem como não relatar o mal-fadado episódio da capa da Veja (que dizia que “um ídolo nacional agonizada em praça pública”). Há mais: não divulgar a linha cronológica da ação (dentre outras informações) foi um grande equívoco. Só uma data é posta na tela: Boston, 1987 (ah, e na morte da Cazuza também). Eu, que era uma criança nos anos 80, me lembro muito pouco do período. E o filme não me ajudou a rememorar a década. Não sei quantos discos o Barão Vermelho lançou com Cazuza como vocalista, não sei o ano de lançamento de tais álbuns, não sei quantos discos Cazuza lançou em carreira solo etc. E isso não acrescentaria tanto tempo ao filme, não.
Todavia, o grande erro foi tratar de forma muito condescendente a personagem principal. Cazuza comete excessos, mas todos encaram isso com a maior boa vontade do mundo. Cazuza grava um disco bastante facilitado pelo pai (que hoje é diretor da gravadora Som Livre), e a classe artística vê isso com bons olhos? Posso estar bastante equivocado, mas creio que a vida de um gay assumido que depois contraiu Aids nos anos 80 não fosse tão fácil assim, não.
Ademais, o filme perpassa a mensagem que o excesso não é apenas necessário, como é a única via. Só desfruta da liberdade quem está no limiar de perdê-la, como uma pessoa que brinca de roleta-russa com um revolver. Nada de moralismo: é óbvio que o excesso vitimou Cazuza, mas as pessoas teimam em ver o filme apenas como uma “celebração” da vida.
No final das contas, a película opta pelo caminho oposto ao do filme “Diários de Motocicleta”: versa sobre o ídolo Cazuza (esse todos já conheciam). Agora o homem, com várias incongruências, com dúvidas, receios como todos nós… Desse, o filme fala muito pouco.
PS – Foi interessante ver a “verdadeira” mãe de Cazuza na tela, bem como o produtor musical Ezequiel Neves, que apareceu ao lado da sua “persona cinematográfica”.
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