That 80’s Party

Fevereiro 15, 2004

“Last night a D.J. saved my life
Last night a D.J. saved my life from a broken heart.
Last night a D.J. saved my life
Last night a D.J. saved my life with a song”

(“Last Night A DJ Saved My Life”, Indeep)

Há pessoas que saem para verem e serem vistas. Que não importa o tipo de som, o que vale é o local, sobretudo os lugares do “momento”. E as tribos forçadas vão se formando, mesmo com os tipos mais distintos entre si. Com o tempo, muda-se a moda, mas não mudam as pessoas. Isso fica realçado em Fortaleza porque há sempre o local do momento, que não dura nem seis meses (quantas discotecas acabaram ou mudaram de nome nos últimos tempos?). Há três anos era raro encontrar um admirador de reggae por aqui. Hoje há várias noites que só tocam isso, programas de rádio…
***

Há também os que gostam apenas de um tipo de som e não gostam de se misturar. A maioria tecendo comentários jocosos sobre o outro grupo. Há a galera do metal, do hip hop, forrozeiros, cults etc.

***

Mas engana-se quem acha que é “babaca” apenas quem freqüenta clubes como o Siqueira. Não gosto de forró, mas acho muito mais ridícula a postura dos pretensos “cults”, que fazem questão de escutar grupos desconhecidos, músicas sinistras… Eu confesso que gosto de muitas coisas “lado b”, mas certas festas em Fortaleza são chatas de doer por investirem apenas em sons desconhecidos. Essa postura é muito mais nociva, posto que se vê de forma intelectualizada. Entretanto, acaba consumindo tudo o que é de fora sem qualquer tipo de filtro, sendo vítima do que é tratado como “a banda do ano”, “o som do ano” etc… Já falei sobre isso, mas em Fortaleza (e creio que no Brasil como um todo) se dá um valor desmedido a tudo que é estrangeiro, principalmente musicalmente. O punk daqui é muito mais punk que o inglês (onde o estilo ganhou sua roupagem definitiva, aliás). O ‘electro” é muito incensado, mesmo já chegando “morto” por aqui.
***

Já falei inúmeras vezes que aqui há poucos espaços que podem ser considerados boas discotecas. Não há ar-condicionado, as pessoas tem de lutar pelo ventilador, o atendimento é ruim, há pouca diversidade mas… Fazer o que? Morrer de lamúrias e não se divertir? Melhor é curtir, até porque o que garante a qualidade da festa, no final das contas, é a música.

***

Por isso iniciar esse texto com “Last Night A DJ Saved My Life”, do Indeep. Canção que resume o valor da música, da verdadeira diversão. Sem fazer tipos, só aproveitar, cantar a melodia e dançar. Mas dançar não para se exibir, mas sim para se divertir. Passar um filme na sua cabeça durante aquela música, expurgar sentimos ruins durante uma certa canção… E isso tudo como se ninguém estivesse olhando, como se estivesse dançando no chuveiro. E isso é possível na That 80’s Party. Que noite. Faltou você, Germano. A sorte é que a festa será mensal. Ei, Marquinhos, por favor, atenda o meu pedido para que a próxima festa “anos 80” seja no dia 10 (meu aniversário). Seria uma comemoração e tanto para mim.

***

Inúmeras vezes falei que se o Ritz continuasse com a empáfia de tocar coisas mais para o umbigo dos DJs do que para o público o fim seria inevitável. Como até relatei aqui, já fui a festas por lá que estavam tão vazias que até um cachorro apareceu dentro da discoteca. Mas agora, como o seu fim decretado, me sinto como os versos do poema “À Espera dos Bárbaros” , de Konstantinos Kaváfis: “E agora, que será de nós sem bárbaros? Essa gente, apesar de tudo, era uma solução”.

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