Mais um com nome composto
Escrito por charles c em Julho 10, 2004
No dia 12 de outubro de 1973, um resoluto pai, embora contente com as novas, diz para sua esposa: “eu queria apenas dois filhos, agora já temos três. Esse é o último”. Dona Socorro aquiesce da decisão. Até para não criar confusão, porque ainda está no resguardo.
Eis que, em meados de fevereiro de 1979, em meio ao reboliço do carnaval, Dona Socorro rejeita toda a fartura de um churrasco e afirma que quer uma jaca. “E é das grandes”, afirma. O pai, que já sabe do que se trata, pega o seu fusquinha rapidamente e sai com a missão de comprar a maior jaca já plantada. No carro, ele resmunga sozinho. Dona Socorro fica no churrasco e, enquanto espera a fruta, não se faz mais de rogada e devora o que está por perto.
Noutro dia, estão indo mais uma vez para a feira. Apesar de conhecer toda a virulência da mulher paraibana, ele pergunta: “mulher, não tínhamos fechado nos três filhos? Por que mais um?” Ela fala com todo o ímpeto das mulheres paraibanas: “você disse que queria dois filhos, eu nunca aceitei isso. Até porque quem manda no meu bucho sou eu”. Ao pai, não resta nada, a não ser se resignar e lamentar uma fatídica noite de novembro de 1978, quando faltou luz na cidade e, até pela precariedade de diversão da capital paraibana, só lhe restou se entregar aos prazeres primários. “Temos de aproveitar que as crianças estão dormindo e a luz faltou”, disse ele no dia.
Na feira, Dona Socorro tasca um olhar desejoso a uma fruta desconhecida. Ela pergunta o que é. O vendedor diz que se chama cupuaçu, e que vem do Norte. Ela diz que quer, ou melhor, que o bebê se mexeu de empolgação quando se aproximou da iguaria. O pai diz que é caro. Ela afirma que tem de dar o que o bebê quer, para que ele não nasça com cara da fruta.
Os filhos divergem. Os dois mais velhos acham divertido ter mais um irmão. “Assim eu posso conseguir mais namoradas”, pensa um. Já o outro pensa em dar um nome ao vindouro. O único que não gostou da idéia foi o terceiro, então caçula. “Mas papai, você não tinha me prometido que eu seria para sempre o mais novo?”, afirmou o descontente. O mais velho, notando a cara de desapontamento do mais novo, ainda troçava: “tu vai perder o cargo de mais novo, que é sempre o mais mimado, e vai para o meio, seara dos problemáticos”.
No dia 10 de julho de 1979, depois de todo o cupuaçu comido, ela olha o bebê ao seu lado. E afirma: “esse vai dar trabalho”.
