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Arquivo para Fevereiro, 2005

De astros e sonhos

Escrito por charles c em Fevereiro 15, 2005

“Brilho Eterno de Uma Mente sem Lembranças”

Assistindo ao maravilhoso filme “21 gramas”, me deparei com um trecho de um belo poema. Fui atrás e encontrei. Trata-se de “La tierra giró para acercarnos”, de Eugenio Montejo. Como não há uma tradução para o português dessa poesia, eu mesmo fiz. Nada de literalidades, apenas para saber sobe o que se trata.

 

A Terra girou para nos aproximar
Eugenio Montejo

A Terra girou para nos aproximar,
girou ao redor de si mesma e dentro de nós,
até que finalmente nos uniu neste sonho

como foi escrito no Simpósio
Noites passaram, neves e solstícios;

O tempo passou em minutos e milênios
Uma carreta que ia para Nínive
Chegou a Nebraska.

Um galo cantava distante
Na pré-vida de nossos pais
A terra girou musicalmente
Levando-nos a bordo;
N
ão parou de girar um único momento,
C
omo si tanto amor, tanto milagre
era somente um provérbio escrito há muito tempo
entre as partituras do Simpósio.

Verbetes
Solstício - Dia do ano em que o Sol, ao meio-dia, atinge seu ponto mais baixo no céu, e tem-se o dia mais curto do ano e a noite mais longa.

Simpósio – Provavelmente, referência a “O Banquete”, título de uma obra de Platão e de outra, de Xenofonte, ambos discípulos de Sócrates, um dos maiores filósofos de todos os tempos. “O Banquete” faz parte dos Diálogos construtivos ou da maturidade. O tema? O amor.

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Aprender a ler

Escrito por charles c em Fevereiro 15, 2005

Um articulador do New York Times, o conservador William Safire, se aposentou. Num dos seus textos, ele listou as regras básicas para ler uma coluna política. Eis algumas, que peguei do site No Mínimo:

1. Preste atenção quando um colunista conservador cita alguém da esquerda e vice-versa para consolidar seu argumento. É trapaça.

2. Nunca procure a história no lide. Repórteres colocam o mais importante no alto, mas o colunista hábil insere a notícia importante ou seu insight no meio.

4. Quando ficar furioso com uma coluna, não bombardeie o colunista com emails abusivos. Ele vai ficar feliz e pensará: “Essa eu acertei.”

5. Para dar a ilusão de coerência, às vezes começamos uma coluna com uma anedota, nos desviamos dela no miolo para retornar ressaltando uma moral da anedota – histórica ou não. Parece esperto, na verdade quer dizer que o colunista não chegou a qualquer conclusão.

7. Preste atenção no pagamento de favores. Safire dá um exemplo: um autor de discursos de Richard Nixon, certa vez, passou aos colunistas que o presidente disse “acabei de passar dos 120″, ao que Henry Kissinger respondeu sorridente “seu golfe está melhorando, presidente”, para o que Nixon respondeu “eu estava jogando boliche, Henry”. Depois que os colunistas fartaram-se com a historieta, o manipulador que era este escritor coletou o pagamento com tratamento amistoso por parte da imprensa. Safire não diz, e há de ser só coincidência, mas seu emprego antes da coluna no Times era, bem, de autor de discursos para Richard Nixon.

12. Ignore quando dois colunistas trocam farpas. São dois observadores que acham que fazem parte do debate e estão, na verdade, distraindo o leitor da real controvérsia. Preste atenção em colunas que enfrentam quem de fato está no poder. (E não em queda.)

 

Yuschenko
O presidente eleito da Ucrânia - aquele do veneno, da luta contra as fraudes -
tem blog. Ele chegou tarde, agora a moda são os fotologs.

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Uma ninguém

Escrito por charles c em Fevereiro 15, 2005

A sinceridade latente está ali. A obrigação da verdade, que nem criança, mas já com os trejeitos de adulto, de dialogar usando todo o corpo. Aliás, até com o que está sobre a pele: a vestimenta serve de adorno para definir a persona. Nada mais natural para alguém que vive da aparência (dos outros, mas como sendo um prolongamento de si mesma).

Uma nordestina genuína (isso faz sentido?), mesmo sendo uma autenticidade calcada em clichês. A cor berrante, o sotaque carregado e todas as expressões, que acompanham desde a infância. “Fiofó”, “furico”, “gente sebosa”, “tolete”… O termo mais chulo ganha nossa cumplicidade.

Isso tudo transformaria alguém em caricatura. Não nesse caso, ainda mais quando é desatinada pelo choro. A imagem, tão arraigada como de felicidade, torna-se dispersa. Mas, mesmo assim, compadecemos de sua revolta.

“Hoje em dia, para ser alguém, não precisa ser ninguém”, disse Millôr Fernandes. Todavia, aqui tudo muda. A futilidade, tão presente, vira virtude. Para o contra-senso ser ainda maior, o cenário é um programa de TV, onde a palavra jogo serve para justificar todo tipo de expediente, desde que não seja correto.

E sorrimos, ficamos do lado dela. Resultado: 87% contra 13%. Felicidade, mesmo efêmera, ainda é nomeada como felicidade (mesmo com todas as teorias de comunicação para guiar nossas opiniões). No final das contas, somos gente, e nós emocionamos com nossos iguais. Tanto para o bem, quanto para o mal.

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Manoel de Barros

Escrito por charles c em Fevereiro 15, 2005

“Por viver muitos anos dentro do mato moda ave O menino pegou um olhar de pássaro - Contraiu visão fontana. Por forma que ele enxergava as coisas por igual como os pássaros enxergam. As coisas todas inominadas. Água não era ainda a palavra água. Pedra não era ainda a palavra pedra. E tal. As palavras eram livres de gramáticas e podiam ficar em qualquer posição. Por forma que o menino podia inaugurar. Podia dar às pedras costumes de flor. Podia dar ao canto formato de sol. E, se quisesse caber em uma abelha, era só abrir a palavra abelha e entrar dentro dela. Como se fosse infância da língua.”

Manoel de Barros

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Partido partido

Escrito por charles c em Fevereiro 15, 2005


Max Ernst

Quem brincava de princesa acostumou na fantasia”

(”Quem Te Viu, Quem Te Vê”, Chico Buarque)

Partido partido

O partido, mesmo partido, venceu.

Depois, mesmo as partes

Não estando mais partidas, perdeu.

Queriam que eu partisse,

Mas acabei os partindo.

Eles? Que vão para o raio que os parta

E eu? Sigo, que nem “partido-alto”.

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