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O estranho ofício de se apequenar

Escrito por c chaplin em Fevereiro 22, 2006

“It’s been too hard living but I’m afraid to die
Cause I don’t know what’s up there beyond the sky
It’s been a long, a long time coming
But I know a change gonna come, oh yes it will”

(A Change Is Gonna Come - Sam Cooke)

“We Are the World”. Beastie Boys e o seu Tibetan Freedom. Bob Geldof e seus Live Aid e Live 8 etc. Época de visita ao Brasil do grande expoente mundial de engajamento e música, Bono Vox, faz levantar o velho e longo debate sobre a importância – quiçá relevância – de tais ações.

Oportunismo. Ingenuidade. Embora o engajamento de músicos – de artistas em geral – seja de longa data, o assunto ainda será tema de inúmeras discussões, até porque depende da bandeira de luta e de quem há ostenta. Há, decerto, os que estão apenas aproveitando uma onda. Outros que acreditam nas mudanças que pleiteiam.

Isso sempre ocorreu. A literatura sofre o mesmo, muitas vezes relegando a segundo plano a obra de um artista (a análise é, não raro, feita de forma descontextualizada, sem levar em conta as características da época). Exemplo claro foi o que fizeram com o autor Jean Paul Sartre.

Mas os astros do cinema e da música sempre atraíram mais atenção, até porque são mais midiáticos. A música ainda mais, visto que o artista é, geralmente, o autor da sua mensagem. E o rock sempre foi a ferramenta ideal dos dissidentes (menções também para soul, rap, reggae, MPB etc.). Até porque o rock é, iminentemente, um gênero musical jovem. E nada mais ligado à esse momento da vida que o engajamento político desde sempre (vide 1968 na França até as recentes manifestações anti-globalização).

Certo, muito desse engajamento não passa pelo crivo de um olhar mais atento. Muitas vezes é apenas modismo (o que lembra o termo Radical Chic criado pelo escritor Tom Wolf, que se refere a pessoas nos anos 60 e 70 que se dividiam entre a vida mundana e o compromisso social). Pior: a entrega dos jovens a certas causas soa mais como massa de manobra, principalmente quando atrelada a partidos políticos (o apoio às greves nas universidades federais brasileiras, por exemplo). Mas isso tem mais haver com a falta de sapiência (que resulta da soma do conhecimento com a vivência).

Voltando para a música. O U2 é, sem dúvida alguma, uma grande banda. Também é o grupo que mais atrai atenção por seu engajamento. Tanto quanto deixa que a crítica entre nas suas músicas (como o disco anti-consumismo Pop), quanto a peregrinação política de Bono. Contudo, já está na história o posicionamento mais aguerrido, de dar nomes aos bois (como os protestos, em 1995, da banda contra o presidente da França, Jacques Chirac, decorrentes dos testes atômicos desse país). Hoje, Bono Vox é mais pragmático, se reunindo com líderes de vários países. O papel mais raivoso cabe atualmente a bandas como System of a Down, Green Day etc.

Há inúmeras causas a serem abraçadas. No mundo, o que não falta é problema. E, por mais que certos objetivos sejam difíceis de alcançar, isso de forma alguma denigre a causa em si. Na pior das hipóteses, serve para lançar luz sobre algum problema, o que pode despertar o fã de um grupo para uma causa social.

Todavia, aqui cabe um grande porém. Os grandes grupos que possuem também engajamento não serão conhecidos apenas por suas aspirações nobres. É necessário primar por uma obra consistente, que mesmo não atrelada a uma causa seja válida. Ou seja, o grupo, em termos musicais, tem de ser analisado pela força de suas canções, e não pelo seu coração bondoso. Foi o erro de Sting na sua fase indígena. Vale lembrar que há muita bobagem artística feita em prol do “social”.

Uma resposta para “O estranho ofício de se apequenar”

  1. lua Disse:

    fazia tempo que eu não vinha aqui.

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