Tempos atrás, Chico Buarque afirmou que votaria em Lula novamente. Fato curioso, um artista que devotou grande parte de sua obra a versar sobre política, prefere silenciar sobre os acontecimentos recentes e seguir em frente, sem maiores debates. O mesmo ocorreu com Marilena Chauí.
Nessa semana, pesquisa Ibope atesta: 58% da população aprova o governo Lula. Triste país. O que mais me choca não é o voto dos “excluídos”, mas dos letrados. Chama atenção o fato de que para certas pessoas, se a denúncia não fosse contra o PT, a postura seria muito mais contundente, sem subterfúgios, como agora.
Enfim, sempre achei que o governo do PT seria complicado. Uma tragédia anunciada. Por isso, reproduzo aqui um e-mail enviado ao Pedro, que continha uma colagem de várias coisas que escrevi antes da eleição.
Pouco antes da eleição, ainda em 2001, escrevi:
O que aconteceu com o PT?
Algo inusitado ocorreu com essa campanha. Muitas das atitudes que outrora seriam caracterizadas negativamente, se tornaram valorosas. Críticos contumazes e pessoas de esquerda - incluindo muitos estudantes universitários, como não poderia deixar de ser - se renderam a uma espécie de “oba oba” da campanha de Lula. Incongruências, equívocos, frases inócuas etc. ou foram esquecidas ou alçaram o status de atitude inteligente. Nunca vi isso na vida: muitas vezes o equívoco foi tratado com louvor. E isso em se tratando da eleição do presidente do país.
O caso das coligações esdrúxulas, por exemplo. Fazer alianças, por mais díspares que fossem as ideologias envolvidas, foi visto como sinal de maturidade do PT. Em 1989, Lula afirmava que José Sarney nunca faria a reforma agrária. Hoje, posa em outdoor ao lado dele. O mesmo ocorre com o apoio velado que o PT deu a Orestes Quércia em São Paulo. Isso sem falar dos sorrisos trocados entre o ex-presidente Itamar Franco e Lula. Quando era presidente, Itamar Franco chamou para integrar o seu ministério a petista Luíza Erundina. O que o PT fez? Exigiu que ela não fizesse isso. Erundina optou por sair do partido. [...]“
Bem antes, depois da divulgação do texto “Carta ao Povo Brasileiro”, escrevi:
“[...]O PT, mais que outro partido, deveria ter um plano de governo já pronto, visto que é um dos poucos partidos que se portam como tal no Brasil, tem uma inclinação ideológica clara. Quer dizer, tinha… A aliança com o PL, a desastrosa administração de Marta Suplicy, a forma inapropriada como reage à crítica (vide as denúncias no governo do Rio Grande do Sul, denúncias sobre a administração de Campinas) mostram que ele não é tão diferente das demais legendas, não.
Na verdade, nenhum candidato tem um plano de governo já definido. Só respondem aos anseios da população, sem a menor lucidez… Quando o assunto do dia era segurança, todos prometeram zilhões de coisas. Agora que o assunto é economia, mais promessas sem sentido… Garanto que todos não sabem uma coisa vital: quanto o governo arrecada. Ou melhor, planeja arrecadar, visto que isso obedece a “várias variáveis”. [...]“
Já em 2002, quando era acusado de ser de direta, de ser do contra, de ser derrotista, escrevi:
“Já escrevi aqui que se ele cagar o pau, a “casa cai” para todo mundo. Eu não gosto do fato de não poder criticar Lula, de muitos o tratarem como a Rainha da Inglaterra. Se culpa o Palloci pela situação econômica do país, mas quem colocou esse cara no Ministério da Fazenda? Luís Inácio Lula da Silva. Ele é o responsável, então.
Outro ponto que detesto é essa forma torpe dele tratar os estudos. Recentemente, na primeira Festa Literária Internacional de Paraty, Millôr Fernandes disse o seguinte: “O Lula deixou a ignorância subir à cabeça”. Millôr explicou, então, que o presidente embaralha tudo quando confunde a posse de um diploma com o conhecimento que ele representa. Assino embaixo.
Vale ressaltar que, embora no princípio a falta de estudos possa ser justificada, depois de um momento, não. Já no final da década de 80, ele foi deputado federal. Ou seja, depois de um tempo, tornou-se uma opção para Lula estudar ou não. E ele optou por não estudar, o que é mais grave.
Antes, pouco depois dos 3 meses de governo, escrevi:
“Eu não suporto esse discurso reducionista “Fora FHC”, “Fora FMI”, “Não a Alca”. Não estou dizendo que sou a favor ou contra nada disso, só quero ressaltar que agir assim, de forma simplista, não vai levar o diálogo a lugar algum.
Isso tudo ressaltou aos meus olhos num evento promovido pela UFC, na última terça, que contou com a presença de Frei Beto. Ele, que foi chamado às pressas para azeitar o programa Fome Zero, diz coisas como “não liguem para a parte da mídia que torce contra o plano” e que “o projeto, apesar das críticas, já está pronto em três meses de governo, um feito e tanto, porque é muito pouco tempo de trabalho”.
Na maioria das vezes, fazia loas ao governo ao qual entrou recentemente. E todos, como macacos de auditório, o aplaudiam. Poucos sabem que ele deu uma entrevista a Revista Imprensa e afirmou: “Achei que foi uma falha do PT, que tinha participado do plebiscito da divida externa, não participar do plebiscito da ALCA. O diálogo do governo federal com todas as entidades de base do país, sejam progressistas ou não, deve ser uma via de mão dupla, não pode se fechar nunca.”
Frei Beto se esquece que foi chamado as pressas para o Programa, que agora foi dividido em duas frentes, uma assistencialista e outra para coletar a doação das pessoas (essa a cargo de Frei Beto). Além disso, ao contrário do que ele falou, o Fome Zero não está fechado, pois encontra-se numa fase de testes, que vai durar seis meses.
Frei Beto não rememora também que um partido que pleiteou tanto tempo chegar ao poder, ganha a eleição e não tem projeto de governo. Que passou os últimos oito anos criticando as propostas do governo anterior agora as abraça com ternura materna.
E o que Lula tem a dizer sobre isso? “Quando a gente é de oposição, pode fazer bravata, porque não vai executar nada mesmo. Agora, quando você é governo, tem de fazer, e aí não cabe a bravata”, explicou o presidente. Isso é uma atitude responsável? Não é a toa que os esforços políticos mais fortes do seu governo até agora - a aprovação da emenda constitucional normatizando a forma de regulamentação do sistema financeiro - foram para um emenda do… José Serra.
Aliás, falando em Lula. Parece que o presidente virou um clube, com uma torcida a favor que não tolera a crítica. Ou seja, para eles, estamos diante de um presidente bibelô, que não pode ser alvo de críticas. Quem critica, para eles, torce contra o governo, são as elites que não querem o progresso do país. Não, eu não torço contra. Se critico, é para que se mude as coisas. Até porque se der errado, a casa cai para todo mundo, quem o apóia ou não.
Por que ninguém critica o fato do truculento Ministro José Dirceu apressou seu pedido de aposentadoria enquanto o governo está pleiteando a mudança na previdência? Por que o governo diz que vai combater os super-salários da previdência enquanto tem ministro que recebe dois salários (um pelo seu cargo no legislativo e outro pelo executivo); Por que a imprensa não faz alarde sobre o documento de quase cem páginas do Ministério da Fazenda contendo balanço e diretrizes para a economia neste e nos próximos anos que, na prática, não muda nada da polêmica ortodoxia em vigor?
Como disse o vocalista do Manic Street Preaches, melhor ter ideologia confusa do não ter nenhuma. Pode ser verdade, mas até para a alienação há limite. Senão, corremos o risco de tudo ir parar numa faixa de protesto que não resulta em nada na prática. [...]”