Em janeiro, a MTV estreou a sua nova programação. Na verdade, disso pouca gente sabe (até porque colocou vários enlatados americanos). O que ganhou mais destaque foi a ínfima participação dos clipes na nova programação. Ou seja, se destruiu toda a lavoura sem saber o que plantar no local.
“Apostar em clipe na televisão é um atraso.” A frase é de Zico Góes, diretor de programação da MTV. Ora, mas foi com clipes que a estreante Mix TV venceu a MTV. Outra emissora paulista que investe em clipes é a Play TV (emissora que, dos 179 que está no ar, completos em novembro, ficou 101 dias à frente da MTV, na média). Essas duas são abertas. Há também o Multishow, que aposta no filão na TV paga.
Além do argumento acima, a MTV também alega que clipes não dão ibope. Mas não foi esse o alicerce da sua programação por tanto tempo? Não seria a queda da audiência um fenômeno mais creditado à concorrência desses novos canais listados acima do que à fadiga dos clipes? Afinal, antes a MTV não contava com concorrentes.
Coerência, no Brasil, é algo raro. Mas vale a pena ler o que Zico Góes disse à Folha de São Paulo, em oito de agosto do ano passado. Ou seja, quatro meses antes da MTV optar por deixar de lado os clipes. “O Ibope não é ferramenta para medir o sucesso em uma TV segmentada. Nós somos segmentados, falamos com público pequeno. No dia em que começarmos a falar não apenas com o jovem, mas com o pai dele, a avó dele, deixaremos de ser a MTV para sermos uma TV generalista.” Ou seja, a emissora desdenha índices de audiência, mas utiliza isso como argumento para descartar o que mais lhe caracterizava?
A MTV local pensa, creio eu, que segue a estratégia da MTV americana. Mas lá se criou inúmeras alternativas, como o canal VH1, voltado para os mais velhos, com mais documentários, e a MTV2, que só passa clipes. A MTV americana investiu mais no filão de programas de entretenimento.
Há também o argumento que os clipes agora pertencem ao meio on-line. E o que não pertence? Apesar do sucesso da versão local da MTV Overdrive, site que conta com um acervo gigante de clipes, num país em que poucas pessoas têm computador, e menos ainda acessam via banda larga, faz sentido trabalhar com essa visão? E para os que não tem essas regalias no momento de acessar a internet, a MTV não poderia ser uma opção para esse público assistir clipes? Essa audiência de excluídos, aliás, é maior do que as pessoas que tem acesso de qualidade. Se a MTV não consegue cativar esse público, erro dela, da sua programação para lá de capenga, e não dos clipes, que parecem ter sido eleitos para justificar a pouca audiência do canal.
Para terminar, a MTV planeja lançar sua própria rádio, em parceria com uma emissora já existente em São Paulo. Para quem considera exibir clipes algo datado, investir em rádio seria uma opção inovadora?