Já escrevi antes, mas volto ao tema. Na lista de destaques de fim de ano da revista americana Spin, aparece como a morte do período o fim do CD. Antes, a revista nacional Bizz também decretava a revolução MP3. Eu não acredito na extinção completa, mas em algo como o que aconteceu com o vinil, virar um produto para colecionadores. Ou pode-se também mudar por completo a forma de se consumir e produzir música, com mais variantes do que músicas, singles e álbuns.
O que me chama atenção nessas análises não é tanto o veredito final, mas os argumentos utilizados. Ora, dizer que o CD vai acabar porque simplesmente virou velho é uma bobagem. Dizer que as pessoas estão consumindo música mais pelo meio virtual é outro argumento furado. Sempre existiram inúmeras formas de consumir música. Das “legais” (houve um tempo que o mesmo disco era lançado em vinil, fita cassete e CD) às alternativas (gravar fitas).
O que conta bastante nisso tudo é que a indústria fonográfica carregou nas tintas. Poucas atividades são tão mal-vistas pelos consumidores quanto as grandes corporações musicais. Já nos anos 80, havia uma campanha dizendo que “gravar fitas caseiras iria acabar com a música”. A mesma truculência reapareceu quando se passou a trocar músicas pela internet. Aliás, a forma como a indústria tratava seus contratados passava, e muito, do que seria correto. Protestos como o de George Michael e de Prince, que entraram em rota de colisão com suas gravadoras, não eram mais comuns pela inércia da maioria dos artistas. O grupo Nenhum de Nós, por exemplo, chegou a renovar com a mesma gravadora, mesmo ela tendo usurpado direitos de músicas de seu álbum de estréia.
Na era pontocom, os artistas também se portaram de forma arrogante. Postura de artistas como Metallica, Dr. Dre, Creed, Madonna e outros, de falar mal ou até querer processar quem baixava músicas pela internet, foi um tiro no pé. Criou um sentimento de que revanche.
O mais correto seria aumentar as vantagens de se ter um CD. Há muitos que tem uma capa capenga. Abandonar o CD é também uma forma idiota do ponto de vista comercial. É abandonar o valor agregado de um produto. É muito mais vantajoso investir nos derivados da castanha do que exportar o produto em estado bruto. Agora, muitos não notarão distinção nenhuma entre puxar música legal ou ilegal, já que não há a menor diferença no conteúdo.
E, na ânsia de manter o mesmo faturamento, o preço dos discos foi aos ares. Antes, se comprava um lançamento por R$ 17,00. Hoje o preço médio é o dobro disso. Ou seja, mais uma forma de se afugentar os consumidores. Em alguns casos, se adicionou ao CD, DVDs. Depois, as gravadoras investiram num número exacerbado de reciclagem de sucessos: coletâneas, discos ao vivo, acústicos… Isso tudo também matou um dos alicerces de se consumir CDs: acompanhar a carreira de um artista, esperar pelo próximo lançamento e por aí vai.
Costuma-se dizer também que muitas lojas especializadas estão fechando. Ora, mas pode-se comprar discos pela internet, de forma mais prática e geralmente mais barata. Além de ser possível encontrar inúmeras coisas que dificilmente se encontra em lojas.
Enfim, o disco físico está acabando mais pelos erros dos outros do que por seus próprios defeitos.
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A realidade é mais complexa do que a necessidade dos jornalistas de simplificar as coisas. No ano passado, segundo um levantamento feito pela Nielsen SoundScan, 588,2 milhões de álbuns foram vendidos, o que significa uma queda de 4,9% em relação ao ano anterior. Realmente, indica uma tendência, já que em 2005 também houve queda, mas pelo que avaliam por aí o CD já era para ser coisa do passado. Também se diz que a nova geração só consome música via MP3. Sabe qual foi disco do ano passado nos EUA? A trilha sonora do filme “High School Musical”, uma obra para adolescentes. Exemplo isolado? Na Inglaterra, também no ano passado, “Whatever People Say I Am, That’s What I’m Not”, disco do grupo Arctic Monkeys, que tem seu sucesso creditado à divulgação na internet, tornou-se o álbum que mais vendeu na primeira semana em toda a história da parada inglesa.