Quando Charles Aznavour encontra o Outkast
Fevereiro 26, 2008

Se um gênero musical é mais conhecido por fatos não musicais, estamos mal. E nisso, o heavy metal sempre foi o mais caricatural de todos. Suas roupas espalhafatosas, a necessidade de cada integrante da banda fazer o seu solo (o guitarrista que coloca a guitarra nos seus ovos, como diria um amigo meu), os cabelos extravagantes… Enfim, uma fórmula enfadonha. E olha que nem repousei meu olhar sobre a música em si. Eis que o heavy metal encontra um gênero a altura para rivalizar em amontoados de clichês: o rap. O rosto de mal, as jóias em excesso, as rixas entre rappers, as letras misóginas… Outra fórmula, e é só olhar para a capa do penúltimo disco de 50 Cent para ver no que deu.
E não devemos confundir características comuns (afinal, é o que diferencia os diversos gêneros e o que une um determinado grupo de artistas sob a mesma denominação), com a busca incessante pelo denominador comum, como na época do Grunge, que várias bandas rumaram para Seattle para conseguir um contrato. Por outro lado, Sex Pistols e Clash, por exemplo, são bandas punk. Todavia, cada grupo possui sua individualidade (no que pese o vigor criativo do Clash e toda a “armação” dos Sex Pistols). Agora, tente fazer o mesmo com o rap. Salvo algumas exceções - como Beastie Boys - não há como distinguir um artista do outro.
E olha que o gênero não era bem assim. Nos idos de 1980, era muito mais festa e criatividade. Diversão era a tônica. Aí surgiu o gangstar e deu no que deu. Claro, há sempre quem queira ver o rap com ares de ciência social. Chico Buarque, por exemplo, declarou recentemente que “O pessoal da periferia se manifestava quase sempre pelas escolas de samba, mas não havia essa temática social muito acentuada, essa quase violência nas letras e na forma que a gente vê no rap. Esse pessoal junta uma multidão. Tem algo aí.” Já Nelson Motta foi mais longe: “O rap -acrônimo de Rhythm and Poetry-, inventado por negros americanos pobres (como o jazz e o funk), é a mais livre e democrática forma musical já criada. Embora muitos ainda duvidem que seja música. O fato é que a consagração popular em todo o planeta o confirma como um novo formato musical do século 21. Como foram a ópera no século 19 e a canção popular música-e-letra no século 20.”
Não teria competência para analisar dessa forma, até porque para mim o rap é somente diversão. O que gostaria de dizer nesse primeiro texto nesse espaço é que ainda pode-se encontrar frescor na fórmula. Da França - que já nos deu uma leitura mais “humana” da eletrônica com o Air - vem o TTC. Seu álbum mais recente, “Bâtards sensibles”, é um achado. São músicas dançantes, que fogem da regra música-gritada-e-refrão-feminino vigente no gênero. Destaques para “Le chant des hommes”, “Bâtard sensible” e “Catalogue”. Para quem se interessou, tem para todos os gostos: há o disco normal, com doze músicas; o álbum duplo (sendo o segundo CD apenas instrumental) e a versão incidental do mesmo disco.
Há ainda outros nomes bacanas surgindo: Streets, na Inglaterra e Orichas, de Cuba. Felizmente, o rap já não pertence somente aos EUA, o que será sua salvação. Afinal, não andam dizendo que o rock japonês e o canadense fazem todo o sentido?
Entry Filed under: Música. Etiquetas: Bâtards sensibles, Beastie Boys, Charles Aznavour, Música, Orichas, Outkast, rap, Streets, TTC.

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