Posts filed under 'Contos'

Assim seja: água

Estava ele a andar até encontrar uma placa com os dizeres “expressamente proibido nadar”. De súbito, surgiu a necessidade de tais águas. Por que ele não poderia desfrutar daquilo? É proibido? É prerrogativa de poucos nadar ali? Ou há algo de perigoso naquelas águas que se apresentavam tão convidativas, tão inocentes?

- Não pense tanto no que está escrito, mas sim dos propósitos de quem me colocou aqui.

Estupefato, ele notou que quem havia falado com ele foi a Placa. Ela falou sem explicação alguma, que nem realismo fantástico.

- Como podes falar, é apenas uma placa? E que sabe você dessas águas?

- Dessas águas, sei muito. Mas isso é relativo: quando aqui cheguei, elas já existiam aí. Ou seja, só sei do período que estou aqui. Da história pregressa, pouco sei. Quando muito, apenas boatos.

- Estou confuso com tantas informações.

- Para clarear seu raciocínio, eu cito uma frase de João Pedro Stédille: “Quando Deus criou o mundo, não botou cerca nele”.

- Tudo bem. Provou-me que é sapiente. Nunca pensei que iria encontrar uma Placa falante, ainda mais de esquerda. Agora, devo ou não desfrutar de tais águas?

- Evoco agora a minha condição de Placa, ou seja, de ser inanimado. Todavia, me despeço do meu ímpeto intelectual citando uma frase da recém-falecida escritora americana Susan Sontag: “As únicas respostas interessantes são aquelas que destroem as perguntas”.

- É uma Placa inteligente, que escolhe quando deve ou não se pronunciar. Ademais, demonstra ler jornais, visto que sabe das últimas.

A placa não mais falou. Por isso, perdeu o direito de ser escrita com a primeira letra em maiúsculo. Não era mais uma personagem, apenas um acessório da cena. Todavia, ele notou um certo ar de superioridade – quiçá desdém – da placa.

Outro silêncio lhe atordoava. A água, a principal personagem da história, não se pronunciou. Mesmo assim, pulou. Achava que era certo, assim fez. Era uma decisão baseada no que achava correto, e não no que iria resultar. Nadou.


Add comment Fevereiro 15, 2005

Uma carta

Querida mamae,

Eu gostaria, primeiro, de esclarecer pq vc não vai ganhar presente nesse ano de dia das mães: simplesmente pq não existo ainda. Se bem que, se existisse, iria acabar lhe dando apenas um monte de colagens de revistas num papel com os dizeres em letras garrafais eu te amo. E esse presente, por mais simplório que seja, iria lhe emocionar.

Agora, vamos aos fatos. A culpa é toda sua por não ganhar presente. Eu sou novo, mas sei fazer as contas. Pelo tempo que você e o papai estão juntos eu já poderia ter nascido e já poderia estar ganhando um irmão. Que depois eu vou me arrepender, pq ele vai me encher o saco.

Se você me ama, me tenha, ora mais. Eu vou lhe cobrar quando tiver 16 anos pelo fato de não dirigir. Afinal, se você já tivesse me tido dois anos antes, o problema não existiria.

Eu diria até, mãe, que a sua atitude irá emperrar a evolução da família. Afinal, se demoram os filhos a chegar, você não terá os netos tão cedo. Aliás, só de pirraça eu não vou lhe dar netos logo, não.

Pense em todos os momentos que você está nos privando. Os abraços, o colo, isso sem falar de Shrek 2 e Os Inscríveis, que só verei em DVD, e não no Cinema.

‘Tá vendo todo o problema que decorre de não me ter? Eu sou especial. Acima de tudo, mãe, me tire da cabeça do pai. Aqui dentro é uma confusão. Eu não consigo entender as coisas, muito menos decorar os nomes de todos os meus irmãos (desejados).

Com carinho,

Do seu filho

PS – Eu tentei mandar essa mensagem pelos correios, mas fica difícil postar uma carta de uma pessoa que até existe, mas só em sonhos.


Add comment Fevereiro 15, 2005

Mais um com nome composto

No dia 12 de outubro de 1973, um resoluto pai, embora contente com as novas, diz para sua esposa: “eu queria apenas dois filhos, agora já temos três. Esse é o último”. Dona Socorro aquiesce da decisão. Até para não criar confusão, porque ainda está no resguardo.

Eis que, em meados de fevereiro de 1979, em meio ao reboliço do carnaval, Dona Socorro rejeita toda a fartura de um churrasco e afirma que quer uma jaca. “E é das grandes”, afirma. O pai, que já sabe do que se trata, pega o seu fusquinha rapidamente e sai com a missão de comprar a maior jaca já plantada. No carro, ele resmunga sozinho. Dona Socorro fica no churrasco e, enquanto espera a fruta, não se faz mais de rogada e devora o que está por perto.

Noutro dia, estão indo mais uma vez para a feira. Apesar de conhecer toda a virulência da mulher paraibana, ele pergunta: “mulher, não tínhamos fechado nos três filhos? Por que mais um?” Ela fala com todo o ímpeto das mulheres paraibanas: “você disse que queria dois filhos, eu nunca aceitei isso. Até porque quem manda no meu bucho sou eu”. Ao pai, não resta nada, a não ser se resignar e lamentar uma fatídica noite de novembro de 1978, quando faltou luz na cidade e, até pela precariedade de diversão da capital paraibana, só lhe restou se entregar aos prazeres primários. “Temos de aproveitar que as crianças estão dormindo e a luz faltou”, disse ele no dia.

Na feira, Dona Socorro tasca um olhar desejoso a uma fruta desconhecida. Ela pergunta o que é. O vendedor diz que se chama cupuaçu, e que vem do Norte. Ela diz que quer, ou melhor, que o bebê se mexeu de empolgação quando se aproximou da iguaria. O pai diz que é caro. Ela afirma que tem de dar o que o bebê quer, para que ele não nasça com cara da fruta.

Os filhos divergem. Os dois mais velhos acham divertido ter mais um irmão. “Assim eu posso conseguir mais namoradas”, pensa um. Já o outro pensa em dar um nome ao vindouro. O único que não gostou da idéia foi o terceiro, então caçula. “Mas papai, você não tinha me prometido que eu seria para sempre o mais novo?”, afirmou o descontente. O mais velho, notando a cara de desapontamento do mais novo, ainda troçava: “tu vai perder o cargo de mais novo, que é sempre o mais mimado, e vai para o meio, seara dos problemáticos”.

No dia 10 de julho de 1979, depois de todo o cupuaçu comido, ela olha o bebê ao seu lado. E afirma: “esse vai dar trabalho”.


Add comment Julho 10, 2004

Histórias pequenas


E ele sofreu. Na verdade, foi mais uma vez entre tantas. Ele, que é de papel, mais uma vez foi rasgado. Todavia, cada vez que isso ocorre, ele se recicla. “Quem não enche o seu mundo de fantasmas fica só” (Antonio Porchia). O pior é que, como em toda reciclagem, o papel fica mais espesso depois…


Add comment Fevereiro 15, 2004

Serviço de Atendimento ao Consumidor do Pólo Norte


Caro Caco,
Como Papai Noel, eu sempre chamo todos por seus apelidos de infância. Até porque você tem essa coisa estranha de uma hora querer ser chamado de Charles, em outros momentos prefere Henrique (como agora).
Eu demorei bastante para entrar em contato com você e mesmo assim o fiz quase um mês após o natal. Mas você deve imaginar o quão trabalhoso deve ser lidar com tantos pedidos. Em tempos de internet está mais fácil a comunicação (não, eu não tenho blog e não vou participar de chats). Muitos pedidos eu respondo em cópia oculta. Mas a sua mensagem eu fiz questão de responder especialmente para você.
Curioso, você sempre fez pedidos esdrúxulos. Você já quis conhecer o criador do pogobol, quis ganhar um Oompa Loompa, desejou que seu irmão sumisse, ser negro como o seu pai, ser amigo do Caco (dos Muppets, daí o seu apelido, né), brincar com o ET, salvar o Guiodai, ter mais cinco irmãos, que o seu macaco e seu cachorro voltassem à vida. Mas, com o tempo, você foi amadurecendo. Deixou de lado pedidos que envolviam vida e morte, mudanças de cor, entrar em desenhos animados etc.
Aliás, como você sempre se interessa pelos porquês, eu vou dizer como funciona.
Muitas solicitações, apesar de serem feitas em grande escala, não podem ser realizadas. Eu não poderia matar o Bush, seria contra os meus princípios. Aliás, está acima dos meus poderes. Eu poderia levar todo o crédito e dizer que você já recebeu presentes maravilhosos, como seus pais, mas aí o crédito não é meu, mas sim DELE.
Eu serei humilde e direi que sou um subalterno. O meu trabalho é “assoprar” no ouvido dos pais para que eles comprem os presentes. É, realmente é uma balela esse lance de que sou eu quem dá os presentes. Mas o meu papel é fundamental, viu? Eu sou o elo entre as pessoas (principalmente entre as crianças e os pais). Para quem não pode comprar, eu “assopro” no ouvido dos que tem muito dinheiro, para que eles comprem, façam doações para os mais necessitados. Afinal, eu trabalho para todos.
Pedidos mais complicados, como saúde, milagres, deveriam ter sido feitos através de rezas para ELE. Mas eu encaminho, sem problemas. Aliás, seguindo os preceitos da administração moderna, aqui em cima tudo é segmentado, terceirizado. Há vários departamentos, e eu encaminho os pedidos para santos, anjos, cupidos…
Feita as devidas explicações, voltamos a você. Depois da infância, você desdenhou da minha existência, como fazem muitos. Normal, já não ligo mais… Mas de uns tempos para cá, você começou a dialogar novamente comigo. Você pode até não admitir, mas eu sei que eram pedidos direcionados a mim.
Seus pedidos eram abstratos.Em 1999, você pediu amor. Em 2000, carinho. Em 2001, amor novamente (mas com várias exigências, como ser uma pessoa afetuosa, inteligente, bonita etc.). Em 2002, paz. Foi aí que eu descobri como dar tudo isso para você de uma vez. “Ah, ele quer a Luciana“, pensei eu.
Foi um plano que exigiu muitas pessoas, e demandou bastante tempo. Era necessário que vocês conhecem várias pessoas em comum, mas não se conhecessem. Por que? Porque eu sabia que você iria sofrer de amor, e que depois iria alardear que só iria namorar de novo se pudesse conhecer a vida pregressa dessa pessoa. Pois foi a solução que encontramos, aí se tu quisesse saber da vida dela, poderia perguntar para várias pessoas.
Essa operação eu assumi pessoalmente. Fui eu quem assoprou (e muito) para você ir fazer a inscrição para estudar francês, para que enfim você a conhecesse. Até cometi atos ilícitos, pedindo milagres para você passar mesmo sem ter estudado. Fui eu quem providenciou a internet através de banda larga… Aliás, fui eu quem “aconselhou” Bill Gates a criar um programar similar ao ICQ, para que vocês tivessem a “conversa azul” através do novo programa. Depois que estavam na mesma sala de aula, o trabalho passou a ser feito pelo cupido mais experiente que temos aqui. Aliás, o mesmo que casou os seus pais, viu!
Digamos que a operação para juntá-los estourou os orçamentos aqui em cima. Por isso sejam muito felizes, porque trabalhamos muito para atender o seu pedido. Mas acertei, não foi? Na noite de natal do ano passado você não pediu nada, só olhou para cima e sorriu.
Mas cuide bem do seu presente, porque aqui em cima, “segundo fontes”, muitos torcem pela felicidade dela. Se tu não fizer ela feliz, tu ‘tá “ferrado”.

Assinado,
Papai Noel


PS - Você realmente me viu quando tinha nove anos. Não foi uma alucinação sua.
PS2 - Não, eu não vou dizer qual é o segredo do universo. A resposta eu até sei, mas não posso dizer por uma questão de hierarquia. Mas tem uma pergunta que eu não respondo porque não sei mesmo. Porque tantas pessoas gostam do Caetano Veloso? Essa nem eu sei responder. Se serve de consolo, também não entendo, viu!
PS3 - Você quer mesmo seis filhos? Vou ver o que posso fazer aqui em cima…


Add comment Fevereiro 15, 2004

The Protean Self, Human Resilience in an Age of Fragmentation

Proteus é o padroeiro das mudanças ponto Esse deus da mitologia grega adotava variadas formas parêntese leão, de serpente, de árvore e mesmo de água parêntese virgula sobretudo para evitar que fosse encurralado e obrigado a responder a perguntas sobre o passado e o futuro ponto

Aspas será que alguém encontrará o tempo para juntar a sucata em que se partiu nossa subjetividade interrogação E será que valeria a pena interrogação aspas parêntese Contardo Caligaris parêntese

É duro vírgula mas a mudança é inevitável ponto E não está restrita apenas aos Deuses ponto A transmutação é mais dolorosa quando diz respeito a dois corpos vírgula duas mentes tão próximas ponto

E vírgula por mais que admire você vírgula é o momento da separação ponto Não é uma ruptura porque os laços são eternos ponto Estou abrindo mão do presente vírgula para que um dia vírgula quem sabe vírgula haja um futuro que faça jus ao nosso passado ponto

É hora de colocar o ponto final vírgula quem sabe essa estória reinicia reticências


Add comment Fevereiro 15, 2004

THE HOLY MOMENT

PEÇA
THE HOLY MOMENT

CENÁRIO

A parte de dentro de um cinema construído na década de 50.

PERSONAGENS

Charles e São Pedro.

FIGURINOS

Charles está vestido de forma desleixada: uma camisa do Pearl Jam, uma bermuda puída e uma sandália muito confortável. Já São Pedro… Está vestido como um santo, ora mais.

SINOPSE
Charles conversa com São Pedro sobre sua cara metade.

CHARLES Depois de muito andar pelo céu, acabei encontrando o senhor. Aliás, nem sabia que você – posso lhe chama de você? – era quem tomava conta desse assunto.
SÃO PEDRO Aqui anda um pouco desorganizado atualmente, visto que estamos terceirizando algumas funções, fazendo fusões, elaborando um planejamento estratégico e por aí vai. Todavia, estou aqui conversando com você pois o céu é estruturado de acordo com a visão de cada um. Sempre que você pensava no céu, você me imaginava nele. Outra coisa: como você sempre se sentiu no “céu” no cinema, aqui tem a forma de um cinema.
CHARLES Então quer dizer que aquele pessoal que acha que o céu é todo branco, com cavalos brancos, um tédio só, vacilam é? E acabam criando um céu nada pessoal, mas sim clichê?
SÃO PEDRO Isso ocorre muito, sim. Mas sempre dá para consertar.
CHARLES Mas eu não lhe imaginei falando de forma tão formal.
SÃO PEDRO O céu individualizado tem limites, ora mais. Senão vira bodega.
CHARLES Outra coisa. Quando estamos na Terra, olhamos para o céu de uma forma sonhadora, principalmente à noite. A lua é romântica, as estrelas inspiram… E aqui, já que estamos no céu, olhamos para onde?
SÃO PEDRO Isso não é mais necessário. Aqui olhamos uns para os outros. De certa forma, isso inspira, acalenta… Aqui é, literalmente, o paraíso.
CHARLES Tudo bem, vou parar por aqui pois tenho inúmeras perguntas, mas tenho de me concentrar num assunto. São Pedro, a Luciana é minha alma gêmea, todo mundo sabe disso. Entretanto, às vezes ocorrem alguns problemas.
SÃO PEDRO Como quais?
CHARLES Como na vez que eu nasci cachorro e ela como uma gata. O problema não é nem sermos bichos diferentes, porque fomos domesticados, mas sim que eu não gosto de gatos. Mas mesmo assim eu a amei com devoção. Ou dá vez que eu nasci mulher, e ela homem, e eu prefiro ser homem mesmo. Ainda mais porque ser mulher em 1500 foi dureza, viu! Se bem que deve ser pior agora, com salto-alto.
SÃO PEDRO Mas isso já foi, estamos em 1979.
CHARLES Eu sei, mas “vazou” a informação que eu vou nascer agora em julho, e ela só daqui a dois anos. E é muito chato esperar por ela. Porque eu sei que eu vou casar com ela, então porque não adiantar o processo? Eu sempre a encontro, como em 1917. Eu era americano e ela russa, mas mesmo assim eu fiz de tudo para conhecê-la. E isso em plena revolução russa.
SÃO PEDRO Isso não depende de mim, mas sim dos computadores. E, para piorar, aqui também usamos Windows. Só queria dizer que você foi afobado, porque estava programado que ela iria para os Estados Unidos (fugindo dos problemas políticos do pai dela), e vocês iriam se conhecer lá. Mas como quis acelerar as coisas, foi para lá e a conheceu no meio de um período de conturbação social. Nada romântico, aliás. Para agravar, acabou mudando várias coisas por isso.
CHARLES Tudo bem, mas agora é a minha vez de dizer que isso é passado. Podemos mudar isso?

SÃO PEDRO Infelizmente, não. Vocês vão ter um espaço de dois anos, e só se conheceram em 2003. Fazer o que, se mudo uma coisa, mudo tudo. Simplesmente não posso.
CHARLES Tudo bem, mas pelo menos posso escolher o país? Queria alguma coisa mais tropical, mais gaiata… Dizem que o Brasil é uma boa pedida para nascer em 1979. A ditadura não vai durar mais muito tempo.
SÃO PEDRO Tudo bem, concedido.
CHARLES Ei, eu posso ter 10 filhos como em 1800?
SÃO PEDRO Você sabe que as coisas mudaram, né? Não é mais comum ter tantos filhos…
CHARLES Tudo bem, eu quero ter os mesmos filhos que tive anteriormente. E quero ser também pai dos pais que terei nessa vida. Só assim poderei retribuir tudo que eles fizeram por mim. Ah, mais uma coisa. Eu não quero ter o Eldon novamente como filho, não. Prefiro como amigo.
SÃO PEDRO Verei o que posso fazer.
[e a peça continua com as duas personagens principais se encontrando. SEMPRE.]


Add comment Fevereiro 15, 2004

A Fuga


Lendo um artigo de Arthur Dapieve no jornal O Globo, ela se deparou com um trecho do poema “Sobre o suicídio do refugiado W.B.” escrito por Bertolt Brecht para seu amigo, Walter Benjamin, que acabou com sua vida quando se viu encurralado pelos nazistas nos limites entre França e Espanha, em 1940. Dapieve termina seu texto escrevendo: “Benjamin não se destruiu para exaltar nenhum deus. Não se destruiu para destruir ninguém. Não se matou para provar nada, exceto, talvez, que a liberdade de se matar era a última liberdade que lhe sobrava. Matou-se porque teve medo. E isso é humano.”

Ela começa a pensar sobre como isso vai de encontro a sua vida. O trecho “a liberdade de se matar era a última liberdade que lhe sobrava” ressoa em seus pensamentos como verdade absoluta.

A partir daí, ela procura mais referências artísticas para justificar seu suicídio. Para ela, se intelectuais como Virginia Wolf e Hernest Hemingway se mataram, não há dúvidas sobre a importância do ato. Entretanto, ela tenta refutar referências óbvias demais, como Romeu e Julieta. Rememora então o romance “O Lobo da Estepe”, de Herman Hesse. No torpor da sua dor, acha que o livro faz loas ao suicídio.

Ao mesmo tempo em que tende a ser a senhora do seu destino, ela se mostra relutante. “Apesar de tudo que o ocorreu, ainda resta outra saída?”, pensa ela. “Será que optar pelo suicídio é melhor que apostar na incerteza da recuperação?”, analisa.

E a tristeza absoluta toma conta dos seus pensamentos. Simplesmente não há saída, ela conclui. Para Manuel Bandeira, ela rememora, “viver é perder amigos”. Eu nunca tive realmente amigos, pensa ela, nem isso eu tenho a perder.

Seus olhos mareados já não podem mais esconder sua dor, que sempre tentou guardar para si, mas que transparecia para todos. Como escreveu Kurt Cobain citando Neil Young em sua carta de despedida: “Is better to burn out than to fade away”.

Depois do que aconteceu, ela não vê mais saídas. Ela lembra Bertrand Russell, que certa vez afirmou: “Temer o amor é temer a vida e os que temem a vida já estão meio mortos”. Ou seja, pensa ela, eu já estou completamente morta, só resta um pouco de contato com a vida, e isso me causa uma dor lancinante. A mente já decidiu. Só há um caminho a seguir. Para ela, é melhor dar cabo da própria vida e investir na incerteza do que se vai encontrar no “outro lado”, do que continuar dessa forma. Para ela, é melhor que nem exista um outro lado.


Add comment Fevereiro 15, 2004

A Fuga - 2

A Fuga - 2

“Quem está preparado para pagar o preço

de uma viagem ao paraíso?”

(”Love for Sale”, de Cole Porter)

Vou me matar, já decidi. Vou me matar e pronto. Agora, como vou escrever a minha carta-suicídio? Tem de ser o melhor texto que vou escrever visto que, obviamente, será o último. Se for ruim, não poderei fazer outros em seguida.

Será que devo fazer como Kurt Cobain, um texto repleto de referências pop (já tinha livro do Nick Hornby naquela época?). Bem, se optar por esse caminho, quais as frases que devo citar? Há tantas músicas sobre desilusão, desespero: Metallica (Fade to Black), Pearl Jam (Jeremy), Mad Season (River of Deceit), Nine Inch Nails (Hurt), toda a discografia do Nirvana etc. As opções são tantas…

A carta-suicídio não pode ser muito longa, senão fica entediante. E não posso abusar das citações… Bem, vou optar por ser original, ou então citar alguém bem obscuro e escrever como sendo meu.

Mas aí surge outro problema: e se não acharem que fui original o bastante? Se julgarem o texto ruim? Já sei, vou me chapar, assim vão analisar o texto com mais comedimento, afinal, não estava normal, não é? E ainda não vão me taxar de louca por ter feito o que eu fiz.

Solucionou um ponto, mas ainda há outras arestas. Devo ou não escrever o motivo do meu suicídio? Fica mais coerente se eu tiver um motivo. Mas tem de ser algo muito importante, uma revelação bombástica, como ter sido estuprada, ou violência infantil… Senão, vão achar que sou fútil. E eu não tenho um grande motivo que justifique a minha opção. Poderia mentir, acusar alguém. Não, seria muito antiético.

Será que é melhor não dizer o motivo, se matar sem deixar um texto? Aí as pessoas podem comentar as possíveis razões, seria o assunto durante muito tempo.

Não sei, não. Estou com mais dúvidas sobre como escrever a carta-suicídio do que sobre a morte em si (e olha que nem cheguei a ponto de escolher as formas de me matar). Vou deixar isso por hora. Quando tiver um bom motivo para me suicidar, faço isso. Até lá, vou escrevendo rascunhos da minha carta-suicídio… Minha vida vai ter de ser muito miserável daqui para frente. Façam-me sofrer!!!


Add comment Fevereiro 15, 2004

A Fuga – 3

“Esses não são personagens literários -são pessoas reais. Eu conheci essas pessoas. Como pode alguém olhar dentro de si e surpreender-se com o ódio e a violência do mundo? Eles estão dentro de todos nós.” (Hubert Selby Jr., autor de “Noites Violentas no Brooklyn”)

Ele se lembra de uma citação de Albert Camus, que certa vez afirmou que “o suicídio seria a maior questão filosófica do século XX”. Ele se corta. Acha bonito o sangue correr de seus pulsos. Não há dor, só vê a beleza do ato. “Sempre sentira que era muito, muito perigoso viver, por um só dia que fosse.” (Virginia Woolf)


Na medida que vai se cortando, o espetáculo fica mais belo. Com o tempo, há tanto sangue que ele não vê os cortes que ainda continua a fazer em si. E nem por isso o ato fica feio. Do contrário, a quantidade de sangue aumenta o seu deleite.

Agora, é feliz. Não pensa nas conseqüências, no que os outros vão dizer. Hoje, só existe o “eu”. Não há problemas afetivos, escárnio dos demais. “homo homini lupus”. E os cortes continuam a ser feitos…


Add comment Fevereiro 15, 2004

Sublata causa, tollitur effectus


Viver só me custa a vida” (Gilberto Gil)

- Ei, como você emagreceu tão rápido?
- Eu sofri.


Add comment Fevereiro 15, 2004

Era uma vez, em 2045…

- Papai, papai!

- Quem é você?

- Eu sou seu filho, papai. Chamo-me 115.

- E eu tenho tantos filhos? Acho que perdi a conta.

- Não, você tem um pouco menos, porque mamãe achou por bem pular alguns números, como 24, 69… E você só usou datas “históricas”, como 10, que é o seu aniversário. Quer dizer, acho até que tenho mais irmãos, porque os primeiros você deu nomes comuns, depois homenageou algumas personalidades, depois que você começou a sacanear, mamãe achou por bem colocar como nome números, até porque fica mais fácil de decorar.

- Como assim sacaneiei? Só homenageie grandes ídolos da minha época.

- Papai, vai dizer que colocar o nome de Sílvio Santos num filho não é sacanagem? Foram pesquisar na Internet e, depois disso, viviam tirando sarro do meu irmão, Sílvio, no colégio.

- ‘Tá certo, mas o que você quer falar comigo?

- Bem, é que eu quero saber como você conheceu minha mãe. Ela é tão lúcida e você é essa marmota. Além disso, amanhã é dia 17, feriado “familiar”, você bem sabe disso.

- Olha o respeito.

- Conta logo, vai. E fala a realidade. Da última vez você disse que foi criado pelos ooompa looompas e que vocês se conheceram na Fábrica de Chocolate.

- ‘Tá certo, vou contar a realidade. Eu vivia por aí, perdido, com muitos excessos. E sua mãe me salvou, ela foi meu “desafio jovem”.

- Ah, pai, fala sério…

- Ah, meu filho, eu falar sério? Bem, então vou dizer a verdade. Minha realidade era cinza e tive alguns relacionamentos sem cor. Aí, um dia comecei uma conversa azul com a sua mãe. E até hoje estamos dialogando “azul”.

- Ah, pai, você nunca leva nada a sério?
- Meu filho, quer saber uma coisa que eu levo muito a sério?

- Sim, pai, o quê?
- A sua mãe eu levo muito a sério.

- Ta certo, então. Só mais uma pergunta que vou para o passeio da escola. Dessa vez vamos para Marte. O que era blog?
- Ah, depois eu respondo.


Add comment Fevereiro 15, 2004

O homem sem-alma

“Quando ficamos surdos/ escutamos tudo, menos o silêncio”

(Fabrício Carpinejar)

Era um cego revoltado. Tudo porque não aceitava a premissa que os olhos seriam a janela da alma. Ele, cristão convicto, não concorda com isso. Afinal, ia às missas todos os domingos. “Eu também tenho alma”, ele resmungava. Toda vez que escutava alguém proferir a fatídica frase, uma discussão começava. Com o objetivo de negar o lugar-comum, acaba reforçando a sua “pretensa” veracidade. “Está vendo? Isso é tão verdade que um sujeito avaro como esse não deve ter alma”, diziam seus detratores. Quando ele morreu, não conseguiu provar que tinha um corpo celeste. Pior: ficou conhecido como o homem sem-alma.


Add comment Fevereiro 15, 2004

Fúria silenciosa

Ele tenta, mesmo sabendo que o ocaso da felicidade é inevitável. Todavia, como seria a fúria de uma pessoa que nunca utilizou armas? Que sempre se furtou aos campos de batalha? Na verdade, ele sempre foi contra qualquer tipo de contra-ataque. Como seria, então, o seu golpe de revide? Teria a força necessária ou seria um ato desmedido? Há muita angústia contida, fúria acumulada. Mas ele se desloca, e chega num lugar não seguro, inóspito. Solitário. Os outros eram mais experientes na arte do combate. O fracasso está nos ossos.


Add comment Fevereiro 15, 2004

A eternidade em um dia

“You say that you hate itYou want to re-create itI’ve been around, I’ve been your lover.I let it go at kill devil hill,You’re coming onto something so fast, so numbThat you can’t even feel.”(So Fast, So Numb, REM)

E ela pára de caminhar. As pessoas sempre recomendaram o sossego, pensar antes de agir. Ela retrucava afirmando que não existe a mansidão, isso está mais no olhar do que na realidade vista. E sua visão sempre foi aflita, urgente. Mas tenta olhar para si, fazer uma análise mais acurada dos fatos. Sua conclusão: feliz é a pedra, que não tem vida. Tanto é verdade que ela dura para sempre (mesmo quando vira pó).


Add comment Fevereiro 15, 2004

O caso do ocaso

“caminante, no hay camino
se hace camino al andar”
(Antonio Machado)

Vivendo, desgastei-me. Sentimentos corroídos, emoções puídas, olhares carcomidos. “A aparência das coisas coagulou-se em desesperado hiato” (Jorge de Lima). Tristeza, passaste por mim e encontrou acolhida segura.

Nesse espaço para emoções áridas, há um tratado que refuta a felicidade, que nega o sonho, que desdenha do riso. Há loas apenas para o inverso de tudo isso. Uma vida em prol da afirmação da negação.

Até que… Nada.

[apenas ficção, ok? Apenas para colocar alguma coisa por aqui, que anda com as atualizações cada vez mais esparsas...]


Add comment Fevereiro 15, 2004


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