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Gastas, porém palavras

Art Spiegelman

“Toda palavra é como uma mácula desnecessária no silêncio e no nada”. Assim disse Samuel Beckett. Curiosa frase, ainda mais para alguém que vive de palavras como eu. Uma escrita manufaturada, é bem verdade, mas ainda sim centrada na palavra.

Encarado de tal maneira, minha atividade bloguística poderia ser vista como uma mácula potencializada pelo tempo. Afinal, são mais de quatro anos. E a não existência desse blogue seria um silêncio forjado não pela falta do que escrever, mas pela censura do que poderia ser revelado.

Enfim, uma ausência que seria extremamente histriônica. Esse tempo de ausência poderia ser encarado apenas como uma trégua ao nada. Novamente, lhes ofereço mais um pouco de alguma coisa.

Um filme simpático

Título bobo, é bem verdade. “Amor em Jogo” mereceria um nome mais interessante. Entretanto, o filme é bem melhor: é simples, é leve, é divertido. Certamente, já se viu tudo isso antes. Até melhor. Todavia, é bem acima das comédias românticas recentes. O título em português fala de amor e jogo. Vá por mim, o amor sai ganhando nessa estória. Detalhe importante é que o filme é baseado num livro de Nick Hornby (o mesmo de Alta Fidelidade). Aliás, o mesmo livro já havia originado um outro título, “A Febre da Bola”, em 1997. Fiquei interessado em ver esse também.

Uma obra necessária

Judeus são desenhados como ratos e os nazistas ganham feições de gatos. Já os poloneses não-judeus são porcos e americanos, cachorros. Há mais: os franceses são sapos. Em momentos de sofrimento, todos são humanos. Eis “Maus”, uma história em quadrinhos de Art Spiegelman, que narra a história de seu pai durante a segunda guerra mundial. Como já falei sobre isso antes, serei curto. Leia. É necessário.

Trecho

“Enfim, é banal ler, em textos de auto-ajuda, que, à força de desejar, a gente consegue: quem não larga o osso é recompensado um dia. Aviso: não é verdade. [...] A intensidade do desejo não leva necessariamente ao sucesso.
Mesmo assim, há uma boa razão para desejar com força: quase sempre, quem não se atreve a querer “doidamente” sofre da única culpa que a gente nunca se perdoa, a culpa de não ter ousado viver segundo nosso desejo.” (Contardo Calligaris)

Enquanto isso…

“You’re Beautiful”, James Blunt / “Mr. Brightside”, Killers / “Minority”, Green Day / “Only”, Nine Inch Nails / “Jetstream”, New Order / “Nowhere Girl”, B Movie / “Every Beat of the Heart”, Railway Children / “Sunday Morning”, Maroon 5.


Add comment Agosto 15, 2005

Carnaval é legal - 2

Que faria o rei Momo em carnavais sem a opulência das festividades? Reinventar-se-ia, ou simplesmente seria cooptado pelos prazeres do momento. Até porque, mesmo a folia desprovida de gingado também faz suas adaptações para receber foliões ávidos por animação.

Todavia, animado sempre é, mesmo o rei perdendo sua majestade a cada ano que passa. Até os opositores do reinado de Momo desistiram de maldizer a data, e moldam o carnaval a sua imagem e semelhança. Agora, todo mundo é folião, mesmo nada tendo de brincante.

Nada de ser contra o carnaval. O lance é aproveitar da sua maneira: estamos em tempos de felicidade segmentada. Tendência velha, diriam. Já houve até o carnaval-folião movido a funk carioca.

No final da contas, o rei Momo continua feliz. Seus súditos diretos podem diminuir, mas o seu reino cresce.

Em Guaramiranga, as diferenças começam pela vestimenta. Ou não. Há pessoas que, lembrando apenas que é carnaval, usam trajes sumários (apesar do pano ser mais grosso). Nas idas e vindas da única rua, muitos rostos sérios… Até certo horário, e principalmente na fila do Teatro. Os poucos apreciadores de jazz e blues estavam em fila. Como em todo o país, a renda per capita estava concentrada. Os demais curtiam mesmo eram covers na tenda Sebrae (nesse ano diminuiu tanto que mais parecia uma barraquinha).

Depois, o vinho fazia efeito. São Braz, Sangue de Boi ou demais genéricos eram usados mais para tornar ébrio do que combater o frio. E teve de tudo, até carnaval-carnaval. O reduto reggae, que já virou obrigação em Fortaleza, se fez presente. Variantes do Noise 3d e da Farra da Casa Alheia também. Num carnaval, que renega o sol, tudo pode acontecer. Mesmo tendo como principal patrocinador uma empresa de energia, falta luz.

Carnaval é… Época de lembrar músicas velhas. E Xuxa sempre vem para nos tacar um sorriso bobo no rosto. Ela, a única artista do mundo com música sobre todos os temas possíveis, ajudou-nos na nossa piada interna.

“Droga, droga, droga, que droga:
A gente não precisa dela
Pra encontrar a saída
Droga, droga, droga, que droga
A gente não precisa dela
Eu amo a vida”

Carnaval também… Viceja a verve intelectual de todos. Nem falemos da Festa no Apê. Essa já virou clássico no cancioneiro popular. Estamos falando das pérolas desconhecidas. A do ano foi “Bonecão do posto”, prova viva do que o melhor do Brasil é o Brasileiro.

“Bonecão do posto ta maluco ta doidão
balança a cabeça, os braços e o popozão”

No ano passado, a máscara cult das pessoas caiu ao som de músicas antigas. Nesse ano, o denominador comum foi assistir Big Brother. Final de copa do mundo, mesmo no meio de campeonato.

E, por último, um olhar atento para as personagens da festa. Nem tão atento assim, posto que será curto. Em casa de mais de 20, criou-se os 17. O bêbado mostrou que sabia dar informações (coisas do carnaval). Numa lagoa, uma negativa. Noutra, a diversão. Mas isso tudo depois de um dia de buscas. Valeu a pena: celebridades, mesmo do mundo da ficção, estavam por lá. O celular multiuso mostrou que a tecnologia não é fria. Do contrário, garantiu vários momentos de descontração. No final, vários novos contatos no orkut, mas daqueles que você fica com vontade de colocar: fan, trusty e cool.

Para fechar o carnaval, assistir “Closer”. Nada mais natural, numa festividade que teve por obrigação subverter as regras carnavalescas.


Add comment Fevereiro 15, 2005

O sono dos injustos

Toulouse-Lautrec

A que se dedica os desprovidos de boas intenções? Qual o objetivo de suas lutas? E as suas conquistas, fundamentadas em vilanias, ainda são comemoradas?

Alguns, tempos depois do ato cometido, vão encarar como experiência. Tudo é aprendizado, dirão. Outros simplesmente colocarão de lado, se portarão de vítima e culparão a outra parte, como o estuprador que diz que a vítima provocou com suas vestes mínimas. “aos melhores falta toda convicção, enquanto os piores estão cheios de intensidade apaixonada” (William Butler Yeats).

O que povoa a consciência de alguém que tem a maldade como hábito? Quando era criança, meu pai dizia que eu não deveria cometer erros. Primeiro porque é errado, segundo porque, mesmo que ninguém descubra, você nunca terá a consciência tranqüila. “Não poderá deitar e dormir o sono dos justos, meu filho”, disse meu pai.

E como é o sono dos injustos? Demoram a dormir ou já estão tão calejados com seus hábitos que o descanso é rápido? Ou se procuram o sono, como forma de fugir de suas falhas? Se sonham, o que vem a sua mente: o tormento do delito cometido ou a redenção de seus atos? Os sonhos – ou os pesadelos – vem para despertar o que há de bom nessas pessoas ou para resguardar os seus segredos, tornar o fardo mais leve? “quantas coisas /um sonho quer dizer /e não diz?” (Alice Ruiz)

Quando querem dizer que algo atingiu o ápice da vilania, dizem que “não é humano”. Mas, infelizmente, é. E não estou me referindo aos erros cotidianos, das pequenas falhas cometidas no dia-dia.

O pior é que as pessoas se acostumam com o desatino, tomam como exemplo o erro não censurado. E, para justificar seus atos, a retórica se desfaz. O que “todo mundo faz” é mais importante do que o que “todo mundo deveria fazer”. “Na complexidade do dia-a-dia, a sabedoria moral é feita de parábolas, de exemplos e contra-exemplos. A capacidade de decidir o que é justo depende da variedade de nosso repertório de experiências e de histórias. Ou seja, depende da riqueza de nossa cultura” (Contardo Calligaris).

Há até aqueles com a maldade nata. Luís Fernando Veríssimo escreveu recentemente: “Nenhum bicho venenoso pode alegar que a luta pela vida o fez assim. Que ele foi ficando venenoso com o tempo, que só descobriu que sua picada era tóxica por acidente, que nunca pensou etc. O veneno sugere que existe, sim, o mal-intencionado nato. O ruim desde o princípio. E o que vale para serpentes vale para o ser humano. [...] o fato é que não dá para evitar a constatação de que há pessoas venenosas, naturalmente venenosas”.

Mais na frente, ele conclui: “[...]A pura maldade inerente a tanto que se vê, ouve ou lê por aí. O insulto gratuito, a mentira infamante, a busca da notoriedade pela ofensa aos outros. Ressentimento ou amargura são características humanas adquiridas, compreensíveis, que explicam muito disto. Pura maldade, só o veneno explica”.

Esse não é um texto de resignação, tampouco de autocomiseração. “Well I know what’s right, I got just one life / In a world that keeps on pushin’ me ’round / But I’ll stand my ground and I won’t back down” (“I won’t back down”, Tom Petty).

Bons sonhos.


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(meus) sonhos

“Não te vás dócil boa noite adentro, Cabe à idade se irar e arder no fim do dia; Afronta, afronta a luz que está morrendo” (Dylan Thomas)

Caro Hipnos,

Talvez essa carta seja um desabafo, ou apenas um apanhado sem sentido de várias observações. Você, que sabe do assunto (afinal, é o deus dos sonhos) deve saber: o que seria da vida sem os sonhos? Talvez eles, como representações de desejos e anseios, sejam o que há de mais verdadeiro em nossas vidas, visto que nos visitam mesmo sem a nossa anuência (ou será que isso é culpa sua?). Ou que nós, corroídos por tanta realidade, joguemos para o campo do sono algo que queremos muito, e o tratamos como algo inalcançável. Por outro lado, o sonho pode ser a lembrança de que aquilo que muito queremos pode ser vivido.

Com o passar da idade, muitas vezes isso muda. A necessidade de sonhar vai sendo trocada pela aridez da realidade. E de tanta realidade, o sonho vai ficando de lado, transformando-se em algo meramente onírico.

Nem sempre foi assim. Antes, os sonhos ocupavam o lugar da realidade ideal, do sonho vivido. “Quando eu crescer, quero ser astronauta”. O sonho, um vislumbre do futuro, era algo a ser alcançado. A dicotomia entre sonho e realidade se fazia apenas pelo tempo, e não pela impossibilidade.

Pensei em tudo isso ao ver “Antes do Pôr do Sol”, que me remeteu a “Antes do Amanhecer” (quem foi que disse que precisamos fechar os olhos para sonhar?). E eu, com 15 anos na época que vi o primeiro filme, morria de medos, receios e outros que tais. A maioria deles sociais. A felicidade era alugar filmes, ir aos cinemas e conversar. Simples assim, até porque os reveses da vida não me derrubavam, porque, acima de tudo, eu sonhava. Os planos mais mirabolantes eram reais.Se tiver ranking dos sonhos mais interessantes, sei que os meus estão bem posicionados.

Agora, em “Antes do Pôr do Sol”, tudo muda. Onde foram parar esses sonhos? Por favor, me devolva meus sonhos. Gastos, puídos, preciso deles. Eu quero ser astronauta, por que não?

A idade fez com que o sonho fosse trocado pelo pesadelo. Pior, pelo ato de não sonhar. O riso transmutou-se em ironia. De onde veio essa verve tão crítica de achar que uma canção boa tem de ter ruídos, ou ser islandesa, ou aos berros, ou extremamente desconhecida? Isso pode ser bom também, mas o pop já foi tão importante na minha vida por tantas vezes, por que não ser mais? E quem sou eu para criticar alguém que curte Evanescence, se eu já me emocionei com Bryan Adams?

Creio que a falta de sonho tenha a ver também com o cinismo de achar que um filme tem de ter todos os predicativos para ser qualificado como arte. E quem disse que eu quero somente isso? E a emoção, pura e simples? E porque antes eu chorava com “Meu Primeiro Amor” e agora tenho tanto receio de ficar com os olhos mareados por causa do belo “Em Busca da Terra do Nunca”?
Os sonhos

 

Talvez não seja com você, mas também preciso que me devolva tais lágrimas, visto que não sou mais capaz de chorar. Na verdade, eu preciso ser devolvido a mim mesmo. Esse não sou o eu que eu queria. Esse não era o eu que eu sonhava ser.

Dizem que o bom filme é aquele que propicia o debate depois de assisti-lo. Para mim, o melhor é o que faz sonhar. Até porque, cinema é sonho (ou fantasia, o que dá no mesmo). Obrigado, “Antes do Pôr do Sol”.

Enquanto a você, Hipnos, espero respostas. Em sonhos.

PS – A personagem principal, ao comentar o final não conclusivo de seu livro, disse que cada um poderia, a seu modo, imaginar como seria o final da sua obra. Um pessimista diria que não, eles não acabaram juntos. O hesitante ficaria na dúvida. E o otimista acreditaria no final feliz. Em relação ao final do filme, fico com a última opção.


Add comment Fevereiro 15, 2005

O estranho caso da árvore sem sombra

Monet

Há tempos, escrevi alguns textos sobre os males do amor. Prometi que iria retornar ao tema, e o faço agora, quase oito meses depois. A demora decorreu da falta de tempo, não de vontade.


Posto isso, sejamos diretos: o mais tolo dos equívocos do amor – ou que se comete em nome dele - é o ciúme. Carece de lógica e substância. Torna o que é rarefeito em algo palpável, que atormenta e desatina.

Os ciumentos poderão dizer que há traições, e o ciúme nada mais é que o reflexo disso. Isso poderia estar correto se ao invés de depositar tantas expectativas num relacionamento, as pessoas dessem um pouco de atenção a uma parte de corpo que costuma ser desprezada, quando se trata de assuntos do coração: o cérebro. Os dois juntos (razão e sentimento), por sinal, fazem um belo par. Um casal que, caso haja entrega de um ao outro, pode render bons frutos (além de refutar inúmeros erros).

Por que digo isso? O raciocínio correto deveria ser: eu estou contigo porque confio em você, e não confio em você porque estou contigo. Aqui, a ordem dos fatores faz uma tremenda diferença. Isso já resolveria o problema de muitos, que sempre sentem insegurança na relação.

Mas há ainda uma parte mais nociva desse sentimento nocivo por vocação, que gera muito conflito, brigas, vexames públicos e outros que tais. Como escreveu filósofo alemão George Simmel, autor de “A filosofia do amor”, algumas pessoas não amam o outro, mas sim o sentimento de posse. E onde há possuídos e possuidores, não há amor. “Que este amor não me cegue nem me siga” (”Cantares”, Hilda Hilst).

Ademais, as pessoas jogam grande desconfiança em todas as demais, quando o problema poderia ser resolvido apenas confiando na outra pessoa da relação. Ou seja, se culpa o mundo por algo que deveria ser responsabilidade do seu namorado(a).

Ele lhe traiu? A culpa é dela, que nem faz parte da relação, ou dele, que deveria ser fiel? Isso é tentar desviar a culpa, para suportar a dor da traição e o ser amado continuar a ser amado. “Foi ela que se insinuou, no final das contas”, o argumento vem para solucionar o problema.

É claro, há algumas pessoas que dizem que quem não tem ciúme não ama. Sem falar no tipo que gosta de despertar o ciúme no outro. Certa vez, uma namorada disse para mim que alguém estava olhando para ela. Secundei dizendo que ela sabia que alguém estava olhando para ela porque ela também estava prestando atenção no olhar de outrem.

A solução para isso tudo? Confiança. Se há desconfiança, desconfie desse sentimento (ou do seu jeito de amar).

Homem-menino (ou seria menino-homem?)

Esse menino vai longe. Vai, mas é bom sempre voltar. Ninguém quer ficar sem ele, não.

Ouvindo…

Aqualung - Strange & Beautiful / Eels - Novocaine for the Soul / Calexico – Quattro / Paloalto - Fade in out / Guster – Careful / Café Tacuba – Eres / Johnny Marr & The Healers Bangin on.


Add comment Fevereiro 15, 2005

Partido partido


Max Ernst

Quem brincava de princesa acostumou na fantasia”

(”Quem Te Viu, Quem Te Vê”, Chico Buarque)

Partido partido

O partido, mesmo partido, venceu.

Depois, mesmo as partes

Não estando mais partidas, perdeu.

Queriam que eu partisse,

Mas acabei os partindo.

Eles? Que vão para o raio que os parta

E eu? Sigo, que nem “partido-alto”.


Add comment Fevereiro 15, 2005

Tributo a Vanderlei Cordeiro de Lima

Na vida, muitas vezes nos deparamos com tipos como Cornelius Horan, ex-padre que agrediu, parou e derrubou Vanderlei Cordeiro de Lima. O brasileiro estava muito bem colocado para ganhar a maratona da Olimpíada de Atenas. Depois de 36 quilômetros, corria com quase 40 segundos de vantagem.

O ex-padre irlandês acredita que deve comunicar ao mundo sua mensagem. Ele não é o único. Há outros que tem missões similares. Tais pessoas crêem que estão fazendo o correto, mesmo que a sua visão do certo seja muito duvidosa. Como as pessoas que dizem “a minha verdade”.

O trabalho é um ambiente propício para isso. É o local onde o poder despótico pode encontrar vários simulacros. E, por mais efêmero que seja, há a necessidade de (des)mandar. Querem cumprir sua missão, mesmo que seja baseado no sacrifício alheio. Que nem o ex-padre.

Posto isso, anuncio que preciso de um novo emprego. Não estou desempregado, estou desapegado. O vínculo gastou-se. Puí-me junto. É melhor continuar até onde posso. Com isso, tento garantir pelo menos a medalha de bronze.

Quem estiver precisando de um jornalista, entre em contato.

Trilhas
Revendo mais uma vez o belo filme “Harry e Sally”, uma música ficou na minha cabeça. Fui procurar na internet e descobri que seu nome é “Let’s Call The Whole Thing Off”, e é cantada por Ella Fitzgerald e Louis Armstrong. Tem uma melodia saborosa e uma letra primorosa (que rima horrorosa!). Segue trecho abaixo:

“You like potato and I like potahto, You like tomato and I like tomahto
Potato, potahto, Tomato, tomahto, Let’s call the whole thing off”

O Estranho Caso do Cachorro Morto, de Mark Haddon
Eis um livro inventivo. A começar pela narrativa de estória, que é contada por um garoto com deficiência mental. O texto vai desconstruindo vários clichês literários, visto que o garoto em questão é quem tenta escrever o livro. Para isso, ele utiliza todas as “técnicas” do que deve ter num texto de ficção. Dizem que é para criança. Talvez por isso tenha gostado tanto.

Hit Parade
5.

“Don’t Leave Me This Way”, Communards
4. “Everybodys Got To Learn Sometime”, The Korgis
3. “Mass Destruction”, Faithless
2. “Spitting Games”, Snow Patrol
1. “Party Crashers”, Radio 4


Add comment Dezembro 15, 2004

Antes, neblina (ensaio de uma personagem de certezas falsas)

“morador e habitação/ um só metro;// mesma fôrma: fato e conceito./ Avalia: coisa e palavra/ no mesmo prato” (”Das Covas”, Eucanaã Ferraz)

Ai, as verdades. No intento de apenas ser um escárnio da mentira, acaba por realçá-la, levando-a a um patamar muito maior. A mentira é apenas a recriação ficcional da realidade. A verdade é a realidade, na multiplicidade de suas versões. Ou seja, no ato de contar, acaba-se também recriando a realidade, só que com credibilidade. Com ares de versão final, irrefutável, a verdade prevalece.

Não há nada mais mentiroso que a verdade. Melhor, então, ficar com a mentira. Pelo menos ela é sincera, no seu modo particular de não ser. E a amplitude de criação é muito maior. É na contradição que reafirmo meus conceitos. “Ora, a verdade não passa de diversidade e confrontação, o que incomoda todo sistema organizado.” (”O Emblema da Amizade”, de Jacques Bonnet)


E nesses tempos de desemprego, o trabalho continua dando trabalho. Tira-se o sustento, muitas vezes, de forma árida. Os resultados benéficos da lida ficam amargos. No final das contas, o pesadelo financia os sonhos.

 

Verdade forjada

Na ilustração desse post, uma imagem de “Maus”, um doloroso álbum de quadrinhos no qual Art Spiegelman conta a história de seus pais no Campo de Concentração de Auschwitz, durante a Segunda Guerra. No trabalho, os judeus aparecem na forma de ratos, os alemães de gatos, poloneses são porcos – e por vezes, em momentos de sofrimento intenso, é restaurada a humanidade dos personagens. Pela publicação, Spiegelman se tornou o único quadrinista a ganhar o Prêmio Pulitzer, dado à melhor literatura estadunidense.

A Companhia das Letras pretende relançar “Maus” este ano. Aguardemos. Isso, sim, é criatividade.

 

Verdade reticente

“Sei que trepo como ninguém e que, se decidir pagar para ter o Safi para mim, farei-o largar mulher e filha. Mas esse matuto não sabe o que eu sei. Que só se trepa bem por amor, e nunca por dinheiro, e que o resto é só desempenho. Amar e viver sem meio-termo. Amar e nunca baixar os olhos. Amar e perder no jogo.”

Trecho do livro erótico “Amendôa”, de Nadjma, uma muçulmana que ainda vive num país islâmico. A putaria está tão grande que até o Renato Aragão escreve livro hoje em dia.

“Quando ficamos completamente nus, puxo-a para a cama, com cuidado para não ir com sede demais ao pote. Mas ela contraria meu prognóstico, movimentando-se com surpreendente desenvoltura. A acoplagem dos corpos processa-se suavemente. Seu sangramento é pequeno, nada que atrapalhe a perfeição deste momento ímpar que estamos tendo o privilégio de usufruir. Permanecemos assim, por um longo tempo abandonados nos braços um do outro, como se de repente o mundo todo se resumisse a nós dois.” (Trecho de Amizade sem Fim, de Renato Aragão)


Add comment Dezembro 15, 2004

Abraço, porém distante

Robert Rauschenberg

Intempéries, reveses, sempre os há. Todavia, o que conta é destino, o objetivo da viagem. Acima de tudo, o olhar do viajante. Sem visão, não se chega a lugar nenhum, mesmo que se chegue. Sem rota, sem comandante, qualquer lugar vira porto. “Eu tinha 20 anos. Não me venham dizer que é a mais bela idade da vida” (Paul Nizan)

Isso ecoa no que eu escrevi no blog da Mônica sobre o filme “Brilho Eterno de uma Mente…” Transcrevo aqui: Não sei, há memórias que eu gostaria de apagar. Lições foram aprendidas, mas de uma forma amarga. Há outras formas de se aprender certas coisas, ou melhor seria ficar sem tais lições. “Que este amor não me cegue nem me siga” (”Cantares”, de Hilda Hilst).

Feridas sentimentais são mais complicadas que as físicas. Essas últimas, você nem precisa se preocupar, o corpo se encarrega de tratar. Mas os males do coração… Nunca cura, fica aí, a ferida. E o bicho-homem, complicação-ambulante, sempre trata de mexer no curativo. Aí tudo retorna. Às vezes, basta olhar.

“A maioria das doenças que as pessoas têm

são poemas presos, abcessos, tumores, nódulos, pedras

são palavras calcificadas, são poemas sem razão

mesmo cravos pretos, espinhas, cabelo encravado, prisão de ventre,

poderiam um dia ter sido poema, mas não”

(Viviane Mosé)

Isso tudo para dizer que a vida segue. “A dor/ é a falta de experiência,/ de forma,/ com que se diga dor” (Heitor Ferraz Mello)

Hit Parade

5. (Reach up for the) Sunrise, Duran Duran

4. Run, Snow Patrol

3. Michael, Franz Ferdinand

2. Rollover Dj, Jet

1. Gabriel, Lamb

Película
Depois falo sobre o novo do Almodóvar. Antes, cabe uma dica (para quem mora em São Paulo). Durante a 12ª edição do Festival de Diversidade Sexual Mix Brasil muitos filmes que dificilmente chegarão ao grande mercado serão exibidos. Entre eles, ressalto o longa “Jackie Curtis, Superstar”, sobre a travesti do clã de Andy Warhol. Em tempos de fama de 15 minutos, tudo relacionado a Warhol merece destaque.

O extra do astro

Eu gosto de Carlos Heitor Cony. Mais dos livros que das crônicas. Tenho até um livro autografado do autor. Mas… Cada vez mais é difícil continuar com a mesma admiração. Ele sempre criticou FHC, mas recebeu dinheiro da Petrobrás para fazer textos. Já teceu elogios para livros do Renato Aragão e da Maitê Proença… Todavia, o pior é ele receber salários mensais de R$ 19.115,90, além de uma indenização retroativa de R$ 1.417.072,75. Tudo como valores indenizatórios da anistia. Num país em que o salário mínimo é de R$ 260,00, isso é imoral.


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Un homme et une femme

Hoje começo uma série de ensaios sobre os equívocos do amor. Nada a ver com minha situação, que vai muito bem. Atendo o pedido de uma amiga, que gostaria que eu versasse sobre o assunto.

Amores brutos – ensaios

Parte 1 – A idealização do amor

O amor é um sentimento, ou seja, algo abstrato. Todavia, é necessário que seja calcado em coisas reais. Do contrário, não passará de palavras sem raízes. Afetuosidade, respeito, atenção. Palavras que só ganham sentido quando praticadas. Assim é o amor (que se vale dessas palavras que citei e muitas outras).

Há aqueles que admiram os talentos de uma pessoa, e não especificamente o parceiro. Ele é um bom músico, um profissional maravilhoso, um escritor de talento, um cineasta de visão… Como namorado, deixa a desejar, mas isso é apenas a parte de um todo, mesmo sendo essa lacuna o fator que faz alguém dizer (realmente) “eu te amo”. “Se é verdade que o amor nunca morre, por que os amantes se esforçam tanto para continuarem?” (”Please Sister”, Cardigans).

Outras vêem os defeitos do parceiro como um desafio. Ele não sabe demonstrar seus sentimentos, mas com o tempo vou fazê-lo perder esse medo. Ele é mulherengo? Vou fazê-lo ser devoto apenas do meu amor. Ele bebe em excesso, fuma, usa drogas… Isso tudo vai mudar. O meu amor será a sua redenção. “E agora, que será de nós sem bárbaros? Essa gente, apesar de tudo, era uma solução“. (Konstantinos Kaváfis, em “À Espera dos Bárbaros”).

Há quem apenas justifique os erros e os aceite. Ele é assim porque sofreu na infância. O pai traía muito a mãe dele, por isso ele não me respeita. Conclusão equivocada: quem ama, sente por completo. Com todas as imperfeições inclusas. “Eu aprendi que a alegria/ de quem está apaixonado/ é como a falsa euforia/ de um gol anulado” (Aldir Blanc).

Todavia, a maior causa de amores sem amor é a solidão. Aquela pessoa que, por razões diversas, não namora há um bom tempo ou que sofreu demais num relacionamento passado. Muitas vezes descarrega uma gama de sonhos em alguém que mal conhece. “E quando chove aqui/ Chove tão forte/ Mas nunca forte o bastante para lavar embora o desespero/ Vou trocar meu amor de hoje por um amor maior amanhã” (“The home front”, Billy Bragg). Em pouco tempo, já está dizendo “eu te amo”. Nada mais inócuo que isso. Por estar tanto tempo sem ninguém, há uma grande quantidade de sentimento acumulado. Sentido, mas não vivido. De certa forma, o amor precede o ser amado.

O pior é que se pode investir nessas “mentiras” durante muito tempo. Podem perdurar para sempre. E, mesmo quando acaba, não há garantia que as “lições” serão aprendidas. Alguns podem maldizer o amor, afirmar que ele não existe, que isso é ilusão de românticos. Outros vão investir sempre, mas com a emoção eclipsando a razão.

Vidas arruinadas pelo amor, mas vividas sem amor. Príncipe com cavalo branco? Somos nós mesmo que criamos…


Add comment Setembro 15, 2004

Un homme et une femme

Amores brutos – ensaios
Parte 2 – O dono da relação

“Nothing ever lasts forever
Everybody wants to rule the world”
(Everybody Wants to Rule the World, Tears for Fears)


Vivemos uma época de pequenos ditadores, de sanguinários vassalos de diminutas localidades. Nunca o “eu” esteve tão forte e o coletivo tão diminuto. O egoísmo atual deixaria Narciso surpreso. Cada vez mais pensamos no próprio umbigo, deixando para o outro um papel secundário, muitas vezes de subserviência. Criticamos a megalomania de líderes como Bush, mas cometemos atos violentos em nossos reinos privados.


Quantos podem se orgulhar de serem bom chefes? Que são bons comandantes para os seus subalternos? Isso muitas vezes depois de terem ocupado cargos inferiores, de terem criticado a forma autoritária dos superiores, mas quando chegam ao poder… Por que? Porque tem gente que pensa que mandar é ser duro. Tais pessoas nunca saberão a diferença entre ser líder e ser chefe.

É como minha avó falava: “quer conhecer mesmo o caráter de uma pessoa? Dê dinheiro e poder a ela”. O pior é que mesmo sem grandes poderes, todos querem mandar. Ou mandam, mesmo não existindo a concordância do outro.


Essa predominância do “eu” ocorre também nas relações pessoais. Quantos são bons parceiros, se doam de forma altruísta? Poucos, creio eu. A maioria quer ser amada, não amar. Quando algo sai errado, logo relacionamentos são desmanchados. Por que? Porque o eu é mais forte que o nós. Não há razão para o esforço se eu sou mais importante que o coletivo. As relações amorosas viraram troca, não doação. Pior: muitas vezes trocas injustas.


Nem todos desistem, há muitos que se subjugam, que aceitam um papel secundário. Há aqueles que tem atitudes que podem ser resumidas na frase: “desculpe, você está errado, eu certo, mas você me perdoa?” Há quem ache que é melhor evitar brigas, e aprovam fatos inaceitáveis.

Abdica-se de profissões, sonhos, porque o outro não concorda com tais anseios. Deixa de conviver com certos amigos, porque eles não receberam a aprovação do vassalo. Que não freqüentam certos lugares, apenas os aprovados por ele. Esquecem que um relacionamento deve respeitar a individualidade das pessoas. Claro, ajustes, adaptações são necessárias. Mas nada que beire a nulidade pessoal.

Há mulheres que não tem mais vida própria, apenas aquele espaço circundado pelo marido. Que tem de ir a reuniões chatas, encontros tolos de trabalho, para escutar as mesmas conversas de sempre. As mesmas reclamações que versam, majoritariamente, sobre o trabalho (dele). Troca-se um mundo de possibilidades por uma pessoa.

O medo do fim da relação pode servir de explicação para esse tipo de expediente. Todavia, nem todas são vítimas, há quem aceite com agrado o dominador. Há pessoas que não conseguem viver fora de uma relação. Que pulam de uma para outra. Ao viverem a vida do outro - os amigos dela, são os dele -, viram um acessório a mais. Há a versão superlativa disso: as que agem, na prática, como uma protetora mãe. Uma pessoa assim, quando não estiver numa relação, vai se perguntar “quem eu sou?” e não terá resposta.

Mas o mais duro é que o ditador pode ser o outro, porém muitas vezes a culpa pode ser apenas nossa. Relacionamentos são mutáveis. Você não pode reclamar de domínio, quando você mesmo deixou que se ocupasse espaços seus. Não tem sentido criticar uma pessoa por ela ser mimada, sendo que você alimentou essa postura.

Enfim, podemos até ser ditadores de reinos próprios mas, roubando uma frase de Pablo Neruda, que são governados por “pobres monarcas sem sapatos”.


Add comment Setembro 15, 2004

Mais um com nome composto

No dia 12 de outubro de 1973, um resoluto pai, embora contente com as novas, diz para sua esposa: “eu queria apenas dois filhos, agora já temos três. Esse é o último”. Dona Socorro aquiesce da decisão. Até para não criar confusão, porque ainda está no resguardo.

Eis que, em meados de fevereiro de 1979, em meio ao reboliço do carnaval, Dona Socorro rejeita toda a fartura de um churrasco e afirma que quer uma jaca. “E é das grandes”, afirma. O pai, que já sabe do que se trata, pega o seu fusquinha rapidamente e sai com a missão de comprar a maior jaca já plantada. No carro, ele resmunga sozinho. Dona Socorro fica no churrasco e, enquanto espera a fruta, não se faz mais de rogada e devora o que está por perto.

Noutro dia, estão indo mais uma vez para a feira. Apesar de conhecer toda a virulência da mulher paraibana, ele pergunta: “mulher, não tínhamos fechado nos três filhos? Por que mais um?” Ela fala com todo o ímpeto das mulheres paraibanas: “você disse que queria dois filhos, eu nunca aceitei isso. Até porque quem manda no meu bucho sou eu”. Ao pai, não resta nada, a não ser se resignar e lamentar uma fatídica noite de novembro de 1978, quando faltou luz na cidade e, até pela precariedade de diversão da capital paraibana, só lhe restou se entregar aos prazeres primários. “Temos de aproveitar que as crianças estão dormindo e a luz faltou”, disse ele no dia.

Na feira, Dona Socorro tasca um olhar desejoso a uma fruta desconhecida. Ela pergunta o que é. O vendedor diz que se chama cupuaçu, e que vem do Norte. Ela diz que quer, ou melhor, que o bebê se mexeu de empolgação quando se aproximou da iguaria. O pai diz que é caro. Ela afirma que tem de dar o que o bebê quer, para que ele não nasça com cara da fruta.

Os filhos divergem. Os dois mais velhos acham divertido ter mais um irmão. “Assim eu posso conseguir mais namoradas”, pensa um. Já o outro pensa em dar um nome ao vindouro. O único que não gostou da idéia foi o terceiro, então caçula. “Mas papai, você não tinha me prometido que eu seria para sempre o mais novo?”, afirmou o descontente. O mais velho, notando a cara de desapontamento do mais novo, ainda troçava: “tu vai perder o cargo de mais novo, que é sempre o mais mimado, e vai para o meio, seara dos problemáticos”.

No dia 10 de julho de 1979, depois de todo o cupuaçu comido, ela olha o bebê ao seu lado. E afirma: “esse vai dar trabalho”.


Add comment Julho 10, 2004

Dogville é aqui

E os vermes te roerão assim como os remorsos
(Baudelaire)

Assistir “Dogville” é ver uma espécie de simulacro da humanidade. Claro, há cineastas que devem estar torcendo o nariz para o filme. Entretanto, creio que a maioria deve estar se roendo de inveja por não ter tido a idéia de usar o cenário da forma que Lars von Trier o utilizou. A cena do estupro, naquele espaço aberto, mostra a anormalidade do ato em meio à rotina dos demais… É impressionante.

Todavia, a maior qualidade do filme é mostrar o quão falha é a natureza do ser humano. Encontram-se todos os subterfúgios para se cometer o mal e o ato bom é minimizado, renegado. Chega-se até a ser taxado de “babaca”. “As coisas são assim”, uns dizem. “O mundo me fez assim”, outros afirmam.

Acima de tudo, é apregoado que “errar é humano”. Ou seja, o que nos une não é nossa capacidade inventiva, nossa criatividade artística, nossas descobertas científicas. Não, o que nos une e é a característica comum do ser humano é o ato de errar.

Isso redime qualquer percalço, pecado cometido. Por que? Porque errar é humano. Erremos, pois. Só assim estaremos reforçando nossas identidades.

Acima de tudo, o mal passou a ser justificado. Pior: aceito. Dogville é aqui.

[e as quartas-feiras continuam sendo uma merda]


Add comment Fevereiro 15, 2004

O não-sonho eterno dos insones

“Chegaram sonhos, subindo o rio. (…)
Paramos, conversamos com eles; eles
sabem muita coisa, mas não sabem de onde vêm. (…)
Eles se viram para o rio e erguem os braços.
Por que levantais os braços em vez de nos abraçar?”.
(Sonhos, Franz Kafka)


Certa vez, a poeta Sylvia Plath afirmou que sua vida era como uma árvore, seu marido era um galho, seus filhos, outros, seus poemas eram folhas que, numa época do ano, caíam.

Ele está vivendo dias de ausência poética. Mas não poesia literária, e sim visão poética da vida. Uma relação alegórica com o cotidiano, uma eterna abstração da rotina. Segundo Alberto Pucheu, ”Pensar poeticamente é se atrever ao pré-dito do pensamento (…), permitindo-lhe se apresentar nas palavras.”

“A maioria das doenças que as pessoas têm
são poemas presos, abcessos, tumores, nódulos, pedras
são palavras calcificadas, são poemas sem razão
mesmo cravos pretos, espinhas, cabelo encravado, prisão de ventre,
poderiam um dia ter sido poema, mas não
pessoas às vezes adoecem da razão
de gostar da palavra presa”

(Viviane Mosé)

Seu mal: não sonhar. Ou melhor, tem um sono disperso, que interrompe o sonho bruscamente, que sempre o joga na realidade de forma turva. Ou seja, sua mazela é excesso de realidade. Não mais. Agora sonha. Acima de tudo de olhos abertos. Agora buscará a verdade do poema “Requiem”, de Bei Dao: “a poesia corrige a vida“.


Add comment Fevereiro 15, 2004

Saudável loucura

Poeminha do Contra
Mário Quintana

Todos esses que aí estão
atravancando meu caminho,
eles passarão…
eu passarinho!

“Perdemos a ternura. Está em alta o vocabulário belicoso, marcial, ofensivo. Ganha sinal positivo tudo o que sugere guerra, força, confronto, agressão.” Assim versa Zuenir Ventura sobre algo que acomete a sociedade. Cada vez mais a intolerância se faz presente. Com o passar do tempo, “Dogville” já não se mostra tão distante da realidade.

E para os que tentam ver outras saídas, o objetivo fica cada vez mais difícil. Como diz uma personagem no filme “Amélie Poulain”: “estes são tempos difíceis para os sonhadores”. Então, que caminhos seguir, se até um filme sobre Jesus, que segundo a Bíblia sempre pregou o amor, faz sucesso nos cinemas mostrando violência extrema?

Como não perder a esperança em tempos coléricos como esse? Alguém pode dizer que antigamente era pior. Isso é ver o problema de forma descontextualizada. Com o grau de desenvolvimento que o homem atingiu de uns tempos para cá, a realidade deveria ser outra. Segundo Contardo Caligaris, “A visão do mundo como campo de batalha não é falsa, longe disso. Mas, às vezes, ela funciona como uma forma de preguiça, pela qual preferimos o enfrentamento, por doloroso que seja, ao incômodo de entender, aceitar as diferenças e trocar figurinhas.

Até para os mais reticentes em entrar nessa rotina do desassossego, há o flerte com a intolerância. As provações são diárias, o convite para ser mais um nesse agir que contraria a sensatez é intenso. O cotidiano cada dia se mostra inóspito. Há saídas?

No mesmo texto, Caligaris tenta desatar o nó da questão: “À força de andar pelo mundo e escutar meus semelhantes, uma coisa aprendi. Aquém das diferenças, de casta, de classe, de status, de ideais e de princípios, temos, sim, algo em comum: a alegria ou a tristeza das paixões, a desolação e o medo da vida que passa e acaba, os prazeres da amizade, a decepção das esperanças frustradas e a euforia das que, por mérito ou sorte, são recompensadas. Em suma, compartilhamos a experiência concreta da vida”.

No final de seu texto, Ventura afirma: “Houve no Rio dos anos 90 um ancião, o Profeta Gentileza, que tentava banalizar a bondade e os gestos delicados. Era considerado um louco porque andava pelas ruas da cidade cumprimentando as pessoas, distribuindo flores, pregando a paz e escrevendo mensagens de harmonia em pilares de viaduto. Morreu há anos.”

O texto pode parecer melancólico, mas não é. O mundo pode até mudar, não eu. Até porque prefiro sempre sofrer da loucura que acometeu Gentileza. Sempre.


Add comment Fevereiro 15, 2004

somos todos freaks

A foto de cima foi tirada por Diane Arbus e o fotografado é Eddie Carmel (o gigante judeu), um homem de dois metros e meio que sofria de uma doença óssea. Assim a fotógrafa explicou sua predileção pelos freaks: “As pessoas atravessam a vida com medo de ter uma experiência traumática. Os “freaks” já nasceram com seu trauma. Passaram no teste da vida. Eles são aristocratas”.

Para Contardo Calligaris, “Ele [o freak] é um protótipo de herói moderno porque sabe como ninguém que a insistência dos olhares não é cura para a solidão”.

Voltando à foto. Esse foi o primeiro retrato de Arbus a lhe satisfazer. Por que? Eis a explicação dela: “Sabe como cada mulher grávida tem o pesadelo de que o filho poderia ser um monstro? Acho que consegui fotografar esse pesadelo na cara da mãe que olha para o filho, lá em cima, e parece pensar: “Meu Deus, isso não!’”.

Contardo Calligaris (sempre ele) escreveu um excelente texto sobre Diane Arbus, na Folha de S. Paulo. Infelizmente, o acesso é restrito para assinantes do UOL. Mas quem quiser é só pedir que eu envio.

Em 1971, aos 48 anos, Diane deitou-se na banheira, tomou barbitúricos, cortou os pulsos e… Somos todos freaks.


Add comment Fevereiro 15, 2004

O Existencialismo da Pedra

Aviso aos visitantes que não estou “down” ou coisa do tipo. Os últimos textos são ficcionais, e não recortes da realidade. Na verdade, o que sinto é raiva. Mas isso não tem nada a ver com os textos que foram publicados.

Sigo em frente

Na labuta do açoite

Meu cotidiano

Já amanhece de noite

Trecho
Há coisas que nos emocionam. Demais. Com certeza, você vai fazer falta.

Quero despedir-me agora de um dentre meus cinco melhores amigos, uma das pessoas mais fantásticas que eu já conheci na vida, um amigo fiel, companheiro, solidário, grande CHARLES HENRIQUE. Gosta de você e lhe admiro muito, e para completar a tríplice coroa, eu confio em você. Aprendi muito convosco, e espero continuar aprendendo. Obrigado por tudo meu amigo valioso.

Biografia não-autorizada

Ele sempre desdenhou das pessoas que ficam eternamente com cara de enfado. Que já acordam com birra do mundo. Outro dia, percebeu que, apesar de toda a ojeriza, virou uma dessas pessoas. Nunca ganhou tanto dinheiro, e nunca se sentiu tão irrealizado no trabalho. “Agora vai e busca água e lava este testemunho imundo de suas mãos” (Shakespeare).

Pois é, no momento que as coisas apertam… Antigos vícios retornam. O pior: a tristeza de algumas pessoas o deixa feliz… E vai nessa toada, sendo o mau escritor de sua biografia. Decerto não poderá autorizar sua publicação, porque ela não obedece ao que acontece, ou melhor, ao que deveria acontecer (o que estava planejado, sonhado…). Como diz uma personagem do filme “Amarelo Manga”: “Êta vidinha mais ou menos…”

Ele quer isso: “I choose not to choose life. I choose something else.” No final das contas, ele tem certeza que não será engolido pela máquina do mundo.

Choose life.
Choose a job.
Choose a carrer.
Choose a family.
Choose a fucking big television, choose washing machines, cars, compact disc players and eletrical tin openers.
Choose good health, low cholesterol, and dental insurance.
Choose fixed interest mortgage repayments.
Choose a started home.
Choose yor friends.
Choose leisurewear and matching luggage. Choose a three-piece suite on hire purchase in arage of fucking fabrics Choose DIY and wondering who the fuck you are on sunday morning.
Choose sitting on that couch whatching mind-numbing, spirit-crushing games shows, stuffing fucking junk food into your mouth.
Choose rooting away at the end of it all, pishing your last in a miserable home, nothing more than an embarrassment to the selfish, fucked up brats you spawned to replace yourself
Choose your future
Choose life


Add comment Fevereiro 15, 2004

O dia de ontem (visto pelo hoje)

Não, eu não me preocupei com o coro dos ausentes. Todavia, o alarde já havia sido feito. E eu estava lá para entoar um grito solitário. Único, mas eficaz. Da próxima vez, não delegarei a tarefa do barulho. Se bem que estou gritando tanto que ando sem voz. Quem sabe já há muito barulho na cidade.

O mais interessante de trabalhar num local chique é se deparar com coisas como o “ambiente vip”. E, como ele disse, “quando o gato sai, os ratos fazem a festa”. E los ratones se divertiram…

“Charles, quem ti vê assim pensa que é um rapaz sério”, ele disse. “Charles, tu ‘tá cheio de dinheiro”, disse ela, que também acrescentou: “mas tu merece, amigo, ser rico”. Outra ela confirmou: “é, tu merece ser rico”. E também acrescentou: “tão dizendo aí que o casamento não demora”.

No final, comes e bebes. Ah, e os olhares amedrontados das garçonetes, porque a equipe é muito voraz. Tudo muito bom, até porque muitos já tinham ido. Todavia, da próxima vez sem exageros na gordura.

Rodapé

Você sabe que está velho quando o programa que faz com seus amigos é almoçar. E tudo muito rápido, porque o tempo está escasso. E você tem certeza que está velho quando encontra mais seus convivas em situações de trabalho do que em momentos de descontração. Mas não tem nada, não. Depois se pode sair, mesmo que seja uma quarta à noite. Germano, eu gosto muito de você. Nós nem temos a mesma profissão, mas vivemos nos esbarrando, não é?

Na foto: elas e eu. Todas elas muito interessantes, belas e competentes. E eu de intrometido.

Último suspiro do texto: E eu consegui a bolinha verde…


Add comment Fevereiro 15, 2004

A insistência dos ausentes 2


Na foto, um dos inúmeros cinemas pornôs do Centro.

Geralmente se em ia em turma ao cinema. Até porque era uma atividade social assistir filmes. E era o momento de ver e ser visto. Em trupe. Ir sozinho? Novamente a morte social. Todavia, eu ia muitas vezes sozinho ao cinema. Até porque muitas das películas eu não tinha nem com quem ir, visto que a maioria dos meus amigos gostava mesmo era dos filmes de ação. Ver um filme dos irmãos Cohen aos 14 anos de idade? Ah, Charles, só tu mesmo… Nem vai ter explosão. E lá fui eu ver “Na Roda da Fortuna”, numa sessão que começou com três pagantes e terminou com dois (contando comigo). Um havia achado ruim e tinha ido embora antes de acabar.

O “verme” – ainda se usa essa gíria? – era tão grande que eu aproveitava para ver logo dois filmes numa tarde só. E foi desse jeito que assisti duas calamidades no mesmo dia (um filme do Steven Segal e “A Família Buscapé”). Meu amigo prometeu vingança por eu tê-lo chamado para assistir isso. E ele se vingou, porque me chamou para ver “Um Drink no Inferno”.

Se a fila era grande, dava-se aquela olhada para achar alguém conhecido. Se não tinha, era necessário usar o truque para furar fila no período de férias: chegar num garoto tímido solitário ou em alguém muito extrovertido. O tímido não negaria, porque ficaria inibido. Para o extrovertido tudo era festa, então deixar alguém passar na frente dele seria um ato de transgressão, o que era legal.

Aliás, existia o “filme” das férias. Naqueles tempos, só um ocupava esse lugar. Teve o

“Batman 2” (todo mundo com tampinhas de Pepsi no cinema, para aproveitar a promoção), “Jurassic Park” etc. De volta as aulas, ainda se falava sobre essas películas (que ficavam muito tempo em cartaz). Agora, há vários filmes de destaque, e eles começam a chegar nos cinemas já em maio.

Enfim, foram várias histórias, como pedir para um senhor dizer que era meu pai para eu poder assistir “Trainspotting” (a censura do filme era 18 anos); o balão no teto do cinema; a vez que assisti um filme na área de fumantes do cine Fortaleza etc.

Rodapé

Apesar de refutar o sentimentalismo tolo dos saudosistas, uma coisas é certa: é triste ver cinemas virando lojas, igrejas evangélicas. Todavia, o mais grave é ver que no Centro proliferam os cinemas pornôs. Nada a ver com moralismo, apenas acho isso um desatino, porque há vários, e todos em péssimas condições. Assim, mais um ponto de Fortaleza vai virando um imenso prostíbulo, como ocorreu com a Praia de Iracema. Quando em muitas cidades do país se pensa a restauração dos Centros, Fortaleza o abandona. Daqui a pouco, essa cidade virará um imenso puteiro. Triste Fortaleza.


Add comment Fevereiro 15, 2004

A insistência dos ausentes

Na foto, o que sobrou do cine Fortaleza.

É triste ver o que aconteceu com o cine Fortaleza. Primeiro foi o cine Diogo, que virou shopping. Agora, o cine Fortaleza, que já estava desativado há um bom tempo, acabou de vez.

Não, não me portarei como um saudosista tolo, e direi coisas como “no meu tempo era que era bom”. A tendência do fechamento dos cinemas do Centro é nacional. Entretanto, mal comparando, é como a morte anunciada de um parente com idade avançada. Todo mundo sabe que vai morrer, mas mesmo assim fica a tristeza na hora da morte.

Foram vários filmes nesses cinemas. Era economizar um pouco e rumar para as salas de exibição. Pipoca? Só às vezes, porque o dinheiro era curto. E muitas vezes só para impressionar a moça. Esbanjava-se, comprava refrigerante e pipoca (tudo o mais caro!), e tinha de pedir dinheiro depois para o amigo, senão voltava a pé para casa. E ainda tinha de torcer para ela recusar o chocolate. Claro, era nosso papel oferecer. Mas não muito, porque todo mundo tende a aceitar depois da segunda insistência.

Não podia levar muito dinheiro, porque o pessoal que estudava na rede pública ficava na bilheteria e pedia para quem estivesse pagando que comprasse a entrada deles também. Eu, magrinho e baixinho, não podia levar nota de dez reais. Esperto, deixava o valor da meia entrada já no bolso da calça. Se desse, aproveitar para assistir logo duas sessões. Mas só nos filmes “massa”.

No cine Diogo era lei: os mais descolados ficavam na parte de cima. Até porque quem se atrevia a ficar em baixo corria o sério risco de levar papel – ou coisas piores – na cabeça. Era tradição também gritar impropérios. Os mais criativos recebiam gargalhadas como premiação. Já os sem graça recebiam um grande “ô ô ô ô ô ô ô ô ô”. Invariavelmente, o que era dito versava sobre a mãe de alguém. É aquele tipo de diversão que, quando você tem uma idade maior e vê alguém fazer, fala desdenhoso “ainda bem que eu cresci e não faço mais essas coisas”. Bobagem, naquele tempo fazia todo o sentido.

No Iguatemi era a mesma coisa. Quer dizer, tudo era mais caro, as salas eram menores, você tinha de ir mais arrumado (mas aquele tipo de arrumado desleixado)… Era obrigatório ir às lojas de CDs - no Centro, se ia a Galeria do Rock - e ver um monte de álbuns de rock. Sim, porque ser visto com o disco do Roxete na mão era a morte social. E a desculpa que era para a namorada nem sempre colava.

Falando em namoro… O período de azaração no Iguatemi era maior, porque ficávamos zanzando por lá antes e depois do filme. Pois é, eu sou do tempo do ficar, mas no “meu tempo” era tudo mais simples, não era esse festival de línguas que existe hoje, não. Era tudo mais ingênuo. Será que ela gosta de mim? Será que posso convidá-la para ir ao cinema? Que filme ela gosta? Será que eu devo convidá-la na quarta, no dia dos pobres, ou devo esbanjar e chamá-la para ir no fim de semana? Detalhe: estou falando dos anos 90.

Depois, dar um tchau (ou era falou, que no tempo não se escrevia com w no final?) e dizer que ia ficar mais um pouco, porque ‘tava muito cedo para voltar para casa. Que nada, tudo mentira. Era para ir esperar o pai nas entradas perto do Cocó, para ninguém ver que íamos voltar de carro. Nem precisa lembrar que seria a morte social ser visto sentado na calçada, esperando o pai.

Era o tempo de perturbar o irmão para pegar o carro e participar das “blitz” das rádios e conseguir os ingressos. Charles, você conseguiu a entrada para a pré-estreita do filme tal? Tu és muito cagado, cara.


Add comment Fevereiro 15, 2004

Confronto travestido de boas intenções

Um convite serve para celebrar algo. É composto, para dois ou mais. É um chamamento para bons momentos, celebrações, festas, comemorações. Mesmo que não seja para compartilhar coisas alegres, serve para procurar o apoio coletivo, homenagear alguém (como um velório). Em suma, há sempre o componente positivo. Pelo menos para mim.

Entretanto, como diz Ítalo Calvino, “o poder da narrativa não está na voz, mas sim no ouvinte”. Há convites que são mais difusos de serem lidos. Precedidos de percalços, o chamamento pode ter uma leitura distinta. Mesmo quando o emissário sugere algo redentor, como pedir desculpas, o receptor permanece na dúvida. Ou seja, tais convites podem ser uma provocação, uma convocatória para discórdia.

Para mim, sabendo do seu caráter (ou falta dele), não há dúvidas dos propósitos desse convite. As pessoas próximas sabem onde não estarei nesse sábado. Erro que teima em retornar saiba que sempre fracassa nesse intento.


Cazuza

Um belo filme. Atuações sublimes. Entretanto, creio eu, o homenageado merecia mais. Tirar Ney Matogrosso da narrativa foi um erro, bem como não relatar o mal-fadado episódio da capa da Veja (que dizia que “um ídolo nacional agonizada em praça pública”). Há mais: não divulgar a linha cronológica da ação (dentre outras informações) foi um grande equívoco. Só uma data é posta na tela: Boston, 1987 (ah, e na morte da Cazuza também). Eu, que era uma criança nos anos 80, me lembro muito pouco do período. E o filme não me ajudou a rememorar a década. Não sei quantos discos o Barão Vermelho lançou com Cazuza como vocalista, não sei o ano de lançamento de tais álbuns, não sei quantos discos Cazuza lançou em carreira solo etc. E isso não acrescentaria tanto tempo ao filme, não.

Todavia, o grande erro foi tratar de forma muito condescendente a personagem principal. Cazuza comete excessos, mas todos encaram isso com a maior boa vontade do mundo. Cazuza grava um disco bastante facilitado pelo pai (que hoje é diretor da gravadora Som Livre), e a classe artística vê isso com bons olhos? Posso estar bastante equivocado, mas creio que a vida de um gay assumido que depois contraiu Aids nos anos 80 não fosse tão fácil assim, não.

Ademais, o filme perpassa a mensagem que o excesso não é apenas necessário, como é a única via. Só desfruta da liberdade quem está no limiar de perdê-la, como uma pessoa que brinca de roleta-russa com um revolver. Nada de moralismo: é óbvio que o excesso vitimou Cazuza, mas as pessoas teimam em ver o filme apenas como uma “celebração” da vida.

No final das contas, a película opta pelo caminho oposto ao do filme “Diários de Motocicleta”: versa sobre o ídolo Cazuza (esse todos já conheciam). Agora o homem, com várias incongruências, com dúvidas, receios como todos nós… Desse, o filme fala muito pouco.

PS – Foi interessante ver a “verdadeira” mãe de Cazuza na tela, bem como o produtor musical Ezequiel Neves, que apareceu ao lado da sua “persona cinematográfica”.


Add comment Fevereiro 15, 2004

O primeiro filme a gente nunca esquece (ou o filme da minha vida)

Uns dizem Cidadão Kane, outros preferem O Poderoso Chefão. Bem, a variação é grande, e as escolhas são bem diversas. Para mim, o filme da minha vida não é nenhum dos mais badalados (apesar de apreciar a maioria). O filme que me fez gostar de cinema foi A Lenda , de Ridley Scott.
Quando ainda morava em Manaus, meu irmão me levou para assistir esse filme. Chegamos atrasados, ficamos numa fila imensa, entre outros problemas. Quando enfim entramos na sala de exibição, havia poucos lugares, e tivemos de assistir o filme naquelas cadeiras da frente, aquelas em que se senta apenas no último caso.
Pois bem, apesar de todas essas adversidades, foi ali que começou minha paixão pela sétima arte. Fiquei apaixonado pela estória, pela qualidade dos efeitos, pela maquiagem do ser maligno (que depois vim a descobrir que era o Tim Curry) mas sobretudo pela fantasia criada. Pode parecer piegas, mas o filme conseguir realizar um mundo de sonhos (e para uma criança não nada mais lúdico que encontrar algo “real” que só existe no seu imaginário). Voltei para casa tremendamente impressionado e fui encenar o filme com os meus “comandos em ação”.
Visto agora, o filme não é lá grandes coisas, mas o efeito que ele produziu em mim (o de adorar cinema), é inestimável. Essa adoração nenhum outro filme conseguiu despertar em mim.
Em tempo: em Manaus todos os cinemas tinham uma réplica em tamanho gigante do cartaz do filme que estava sendo exibido. E isso era pintado à mão. O resultado era excelente. Outra coisa bacana era que todos os cinemas tinham nomes de personalidades da sétima arte, como Cantinflas e Carmem Miranda. Cool. Não sei se continua assim, mas deveria.
Pergunta: E para vc, qual o filme mais importante (não estou perguntando o melhor)?


Add comment Dezembro 15, 2002

Todo Carnaval tem seu fim

Todo Carnaval tem seu fim

No Brasil, se diz que o ano só começa depois do carnaval. Pelo menos o meu já começou faz tempo. Nunca trabalhei e estudei tanto na vida. Faculdade todo dia pela manhã e ainda tenho de voltar a noite (segunda, quarta e sexta). Tudo isso para voltar logo para Fortaleza ? curso jornalismo na Federal da Paraíba ? casar (eu já sou noivo!), terminar logo o curso etc. Depois falo mais sobre meu atual semestre.

Quanto ao trabalho, não vou me estender muito, só vou dizer mesmo que sou produtor de Internet.

Mas voltando ao Carnaval que até agora não falei dele. Começou mal. Um amigo se matou um dia antes das festividades (Só vim saber no sábado de carnaval). Ele era gente boa, apesar dos inúmeros problemas que sofria. Era esquizofrênico e maníaco depressivo.

No resto, tentei me esquivar ao máximo das músicas baianas (Esse ano teve canções sobre Manteiga e Maionese!!!!) e tentar algo mais calmo numa viagem a uma cidade com praia (Tabuta), nas proximidades de Fortaleza.

Um dos momentos mais divertidos foi um baile de fantasia realizado pelo DA de comunicação da Federal do Ceará dias antes do Carnaval. Um amigo meu, Matheus Carvalho de Carvalho (esse é realmente o nome dele), foi fantasiado de Homem Colchão. Ele pregou um colchonete ao corpo e caiu na folia. Ganhou a terceira colocação (merecia a primeira). Recebeu um penico como prêmio. No carnaval ele repetiu a mesma fantasia.

Para terminar o assunto carnaval, vale a definição do professor americano e brasilianista Joseph Page: “a sociedade suspende suas regras, as hierarquias se invertem e as energias da vida diária dão lugar à busca desinibida do prazer (…). Pessoas de todo tipo se transformam no que elas querem ser”.


Add comment Fevereiro 20, 2002


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