Posts filed under 'Poema'

De astros e sonhos

“Brilho Eterno de Uma Mente sem Lembranças”

Assistindo ao maravilhoso filme “21 gramas”, me deparei com um trecho de um belo poema. Fui atrás e encontrei. Trata-se de “La tierra giró para acercarnos”, de Eugenio Montejo. Como não há uma tradução para o português dessa poesia, eu mesmo fiz. Nada de literalidades, apenas para saber sobe o que se trata.

 

A Terra girou para nos aproximar
Eugenio Montejo

A Terra girou para nos aproximar,
girou ao redor de si mesma e dentro de nós,
até que finalmente nos uniu neste sonho

como foi escrito no Simpósio
Noites passaram, neves e solstícios;

O tempo passou em minutos e milênios
Uma carreta que ia para Nínive
Chegou a Nebraska.

Um galo cantava distante
Na pré-vida de nossos pais
A terra girou musicalmente
Levando-nos a bordo;
N
ão parou de girar um único momento,
C
omo si tanto amor, tanto milagre
era somente um provérbio escrito há muito tempo
entre as partituras do Simpósio.

Verbetes
Solstício - Dia do ano em que o Sol, ao meio-dia, atinge seu ponto mais baixo no céu, e tem-se o dia mais curto do ano e a noite mais longa.

Simpósio – Provavelmente, referência a “O Banquete”, título de uma obra de Platão e de outra, de Xenofonte, ambos discípulos de Sócrates, um dos maiores filósofos de todos os tempos. “O Banquete” faz parte dos Diálogos construtivos ou da maturidade. O tema? O amor.


Add comment Fevereiro 15, 2005

Natal

CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE

Menino, peço-te a graça
de não fazer mais poema
de Natal.

Uns dois ou três, inda passa…
Industrializar o tema,
eis o mal.


Add comment Dezembro 15, 2004

Poemas


“Cinzas, cinzas
Você remexe e atiça.
Carne, ossos, não há nada ali”
(Lady Lazarus, Sylvia Plath)

“seu corpo é só um nó de frio
em busca de mais mar e mais vazio”
(Sophia Mello Andresen)


Add comment Agosto 15, 2004

Se

Rudyard Kipling
Tradução: Guilherme de Almeida

Se és capaz de manter a tua calma quando
Todo mundo ao teu redor já a perdeu e te culpa;
De crer em ti, quando estão todos duvidando,
E para esses, no entanto, achares uma desculpa;
Se és capaz de esperar sem te desesperares;
Ou, enganado, não mentir ao mentiroso,
Ou, sendo odiado, sempre ao ódio te esquivares,
E não parecer bom demais nem pretensioso;

Se és capaz de pensar, sem que a isso só te atires;
De sonhar, sem fazer dos sonhos teus senhores;
Se, encontrando a Desgraça e o Triunfo, conseguires
Tratar da mesma forma esses dois impostores;
Se és capaz de sofrer a dor de ver mudadas
Em armadilhas as verdades que disseste,
E as coisas por que deste a vida, estraçalhadas,
E refazê-las com o bem pouco que te reste;

Se és capaz de arriscar numa única parada
Tudo quanto ganhaste em toda a tua vida,
E perder, e ao perder, sem nunca dizer nada,
Resignado, tornar ao ponto de partida;
De forçar coração, nervos, músculos, tudo,
A dar o que for que neles ainda existe;
E a persistir assim quando, exausto, contudo,
Resta a vontade em ti que ainda ordena: “Persiste”!

Se és capaz de, entre a plebe, não te corromperes,
E, entre reis, não perder a naturalidade;
E de amigos, quer bons, quer maus, te defenderes,
Se a todos podes ser de alguma utilidade;
Se és capaz de dar, segundo por segundo,
Ao minuto fatal todo o valor e brilho,
Tua é a terra, com tudo o que existe no mundo,
E - o que é mais - serás um Homem, ó meu filho!


Add comment Fevereiro 15, 2004

Poesia numa hora dessas?

Amo, amas
Ruben Dário

Amar, amar, amar, amar sempre, com todo
O ser e com a terra e com o céu,
Com o claro do sol escuro do lodo:
Amar por toda ciência e amar, por todo desejo,
E quando a montanha da vida
Nos seja dura e longa e alta e cheia de abismos,
Amar a imensidade que é de amor acesa
E arder na fusão de nossos peitos mesmos!

Meu amor
Eugenio Montejo

Em outro corpo vai meu amor por esta rua,
sinto seus passos embaixo da chuva,
caminhando, sonhando, como em mim já faz tempo…
Há ecos de minha voz em seus sussurros
posso reconhecê-los.
Tem agora uma idade que era a minha,
uma lâmpada que se acende ao nos encontrarmos.
Meu amor que se embeleza com o mar das horas,
meu amor no terraço de um café
com um hibisco branco entre as mãos,
vestida à antiga do novo milênio.
Meu amor que seguirá quando me for,
com outro riso e outros olhos,
como uma chama que deu um salto entre duas velas
e ficou iluminando o azul da Terra.

Amor?
Ricardo Miró

Uma vaga inquietude; um misterioso
temor; como um feliz pressentimento;
um íntimo e reservado tormento;
uma pena que acaba em alvoroço
o sufocante nó de um soluço
perene na garganta; o sentimento
de uma dor que se acerca; o pensamento
cheio de luz, de júbilo, de gozo;
uma contradição funda e escura
que me enche a vida de amargura,
que mata toda luz e toda idéia,
que turba toda paz e toda alegria;
porém… senhor, que sabes minha agonia:
se tudo isso é amor, bendito seja!


Add comment Fevereiro 15, 2004

Soneto amoroso definindo o amor

Francisco de Quevedo

É gelo abrasador, é fogo gelado,
é ferida que dói e não se sente,
é um sonhado bem, um mal presente,
é um breve descanso muito cansado;

é um descuido que nos dá cuidado,
um covarde, com nome de valente,
um andar solitário entre a gente,
um amar somente ser amado;

é uma liberdade encarcerada,
que dura até o derradeiro paroxismo,
enfermidade que cresce se é curada.

Este é a criança Amor, este é seu abismo.
Olha qual amizade terá com nada
o que em tudo é contrário de si mesmo!


1 comment Fevereiro 15, 2004

Tudo

bei dao

tudo é fado
tudo é nuvem
tudo é começo sem fim
tudo é busca que, ao nascer, exicia-se
toda alegria deve sorrisos
todo pesar deve lágrimas
toda língua é repetir-se
todo contato, primeiro encontro
todo amor, no coração
todo o passado, num sono
toda felicidade, com notas de rodapé
toda fé, com gemidos
todo rasgo tem uma súbita calma
todos os mortos, um eco demorado


Add comment Fevereiro 15, 2004

Jogadores que dormem no homem

Jogadores que dormem no homem
(Jean Cocteau)

O homem é um jogo arriscado
Que os jovens às vezes jogam
Com rosto à mesa colado.
Pálidos, imersos na sombra.

Esses anjos assustados,
No verão dormem no homem
Nadam dentro de seu sono,
Usando um braço encantado.

Os que dormem têm pernas?
Pra eles há o alto e o baixo?
Então na brisa ou na terra?
Circula o ar em seus ossos?
Têm ossos dentro do braço?

O jogo homem é um esporte
Praticado entre os que dormem.
Dentro de um silêncio enorme.
Rouba-se o parceiro morto

Repare, o jogo da mourre
É semelhante ao do homem:
Quem fizer amor dormindo
É logo expulso do sono.


Add comment Fevereiro 15, 2004

A rua das rimas


Guilherme de Almeida

A rua que eu imagino, desde menino, para o meu destino pequenino
é uma rua de poeta, reta, quieta, discreta,
direita, estreita, bem feita, perfeita,
com pregões matinais de jornais, aventais nos portais, animais e varais nos quintais;
e acácias paralelas, todas elas belas, singelas, amarelas,
douradas, descabeladas, debruçadas como namoradas para as calçadas;
e um passo, de espaço a espaço, no mormaço de aço baço e lasso;
e algum piano provinciano, quotidiano, desumano,
mas brando e brando, soltando, de vez em quando,
na luz rara de opala de uma sala uma escala clara que embala;
e, no ar de uma tarde que arde, o alarde das crianças do arrabalde;
e de noite, no ócio capadócio,
junto aos lampiões espiões, os bordões dos violões;
e a serenata ao luar de prata (Mulata ingrata que mata…);
e depois o silêncio, o denso, o intenso, o imenso silêncio…
A rua que eu imagino, desde menino, para o meu destino pequenino
é uma rua qualquer onde desfolha um malmequer uma mulher que bem me quer
é uma rua, como todas as ruas, com suas duas calças nuas,
correndo paralelamente, como a sorte diferente de toda gente, para a frente,
para o infinito; mas uma rua que tem escrito um nome bonito, bendito, que sempre repito
e que rima com mocidade, liberdade, tranqüilidade: RUA DA FELICIDADE…


Add comment Fevereiro 15, 2004

Trechos

“Não levarei arrependimentos nem o peso da hipocrisia/ Tenho pena daqueles que se agacham pelo chão/ Enganando a si mesmo por dinheiro ou posição/ Nunca tomei parte desse enorme batalhão”.
(É Hoje, Wilson e José Batista)
EMERGÊNCIA
Mario Quintana

Quem faz um poema abre uma janela.
Respira, tu que estás numa cela
abafada,
esse ar que entra por ela.
Por isso é que os poemas têm ritmo
- para que possas profundamente respirar.
Quem faz um poema salva um afogado.


Add comment Fevereiro 15, 2004

Casamento

Casamento
Adélia Prado

Há mulheres que dizem:
Meu marido, se quiser pescar, pesque,
mas que limpe os peixes.
Eu não. A qualquer hora da noite me levanto,
ajudo a escamar, abrir, retalhar e salgar.
É tão bom, só a gente sozinho na cozinha,
de vez em quando os cotovelos se esbarram,
ele fala coisas como “este foi difícil”
“prateou no ar dando rabanadas”
e faz o gesto com a mão.
O silêncio de quando nos vimos a primeira vez
atravessa a cozinha como um rio profundo.
Por fim, os peixes na travessa,
vamos dormir.
Coisas prateadas espocam:
somos noivo e noiva.


Add comment Fevereiro 15, 2004

Dançar

Rápido e Rasteiro
Chacal
Vai ter uma festa
que eu vou dançar
até o sapato pedir pra parar.
aí eu paro
tiro o sapato
e danço o resto da vida.


Add comment Fevereiro 15, 2004

Poemas

O AMOR E SEU TEMPO

Carlos Drummond de Andrade

O amor é privilégio de maduros.
Amor é o que se aprende no limite,
Depois de se arquivar toda a ciência herdada, ouvida.
Amor? Começa tarde.
Leva toda uma existência
Para vermos, verdadeiramente, o outro.
Para nos compreendermos
E nos amarmos,
Como é a intenção mais profunda
Do nosso desejo.

UMA RELAÇÃO

Drauzio Varella


Um bom casamento, uma boa relação
tem que servir pra eu me sentir 100% à vontade
com meu companheiro.
Inclusive par discordar dele, como não?
Pra ter sexo com ele
ou para cair no sono, logo depois do jantar, pregada.
Uma relação tem que servir
pra eu ter com quem ir ao cinema(de mãos dadas).
Pra eu ter alguém que saiba instalar o som novo
enquanto eu preparo uma omelete.
Pra eu ter alguém com quem ficar em silêncio
sem que nenhum de nós se incomode com isso.
Uma relação tem que servir
pra um cobrir as despesas do outro
num momento de aperto.
Pra cobrir as dores do outro num momento de perda.
E um cobrir o corpo do outro
quando o cobertor cair.
É simples!…
Uma relação tem que servir
Pra um acompanhar o outro no médico.
Pra um perdoar as fraquezas do outro.
Pra um abrir uma garrafa de vinho
pra que o outro possa abrir o jogo.
E pros dois se abrirem para o mundo.
Sabendo que o mundo não se resume só aos dois.


Add comment Fevereiro 15, 2004

Poema

Perdigão perdeu a pena
Não há mal que lhe não venha.

Perdigão que o pensamento
Subiu a um alto lugar,
Perde a pena do voar,
Ganha a pena do tormento.
Não tem no ar nem no vento
Asas com que se sustenha:
Não há mal que lhe não venha.

Quis voar a uma alta torre,
Mas achou-se desasado;
E, vendo-se depenado,
De puro penado morre.
Se a queixumes se socorre,
Lança no fogo mais lenha:
Não há mal que lhe não venha.
(Camões)


Add comment Dezembro 15, 2002


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